45% dos cursos de medicina do RJ, todos particulares, têm nota ruim no Enamed; Cremerj vê 'tragédia anunciada'
26/01/2026
(Foto: Reprodução) 45% dos cursos de medicina do RJ, todos particulares, têm nota ruim no Enamed
Quase metade das faculdades de medicina em funcionamento no Estado do Rio de Janeiro teve desempenho considerado insatisfatório na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).
O resultado acendeu um alerta sobre a qualidade da formação de novos médicos no estado, e especialistas defendem a aprovação de um projeto de lei no Congresso Nacional para criar um exame obrigatório para obter o registro profissional.
O Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) é uma prova anual para medir o desempenho dos estudantes e a qualidade do ensino. Ao todo, 351 cursos foram avaliados no país, e 30% estão na faixa considerada insatisfatória.
O exame teve a participação de mais de 39 mil estudantes do último ano de medicina. No Rio de Janeiro, 3.302 alunos fizeram a prova. No recorte estadual, 45% dos cursos avaliados receberam conceitos 1 ou 2 — as duas notas mais baixas numa escala que vai até 5. Nacionalmente, 30% das faculdades foi de 30%.
Isso significa que, das 22 faculdades de medicina em funcionamento no estado, 10 tiveram desempenho muito ruim. Todas são instituições privadas. O Rio apresentou o pior resultado da Região Sudeste.
RJ - 45%
SP - 34%
ES - 0%
MG - 26%
A pior nota do RJ foi da Estácio de Angra dos Reis, que teve conceito 1, com apenas 21,3% dos alunos com nível considerado de "proficiência" - quando ele acerta mais de 50% da prova.
Ficaram com conceito 2:
Unig Nova Iguaçu
Unid Itaperuna
Unigranrio Rio de Janeiro
Unigranrio Caxias
Unifeso (Teresópolis)
Unifoa (Volta Redonda)
Atya Itaperuna
Unifamesc (Bom Jesus do Itabapoana)
Cinco obtiveram nota 4, a máxima no RJ:
Faculdade Souza Marques
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
UFRJ Macaé
Universidade Federal Rural do RJ (UFRRJ)
Destas a melhor foi a Uerj, com 89% dos alunos com nível de proficiência.
'Tragédia anunciada', diz Cremerj
Segundo o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Antônio Braga, o cenário é consequência da abertura indiscriminada de cursos sem estrutura adequada.
“Essa é uma tragédia anunciada que nasce da abertura indiscriminada de novas escolas médicas. Isso tem colocado na sociedade profissionais com qualificações inferiores, sem cenário de prática, sem professores capacitados. Muitos desses alunos chegam ao mercado de trabalho sem as competências mínimas para atender bem a população, o que representa um grande risco à saúde pública”, afirmou.
Risco de sanções do MEC
Na prática, as notas 1 e 2 colocam as faculdades sob risco de sofrer sanções do Ministério da Educação (MEC).
Segundo a pasta, instituições mal avaliadas podem ser proibidas de abrir novas matrículas, obrigadas a reduzir o número de vagas e submetidas a processos administrativos para corrigir problemas pedagógicos e estruturais.
O presidente do Sindicato dos Professores da Rede Particular do Rio (Sinpro-Rio), Elson Paiva, avalia que quem acaba sendo enganado é o próprio aluno.
“Sem investimento nos professores — em qualificação, condições de trabalho e salários — não há como garantir uma formação adequada. Estamos formando muitos médicos, mas uma parte significativa não consegue ter uma formação completa. Não adianta ter um diploma se isso coloca vidas em risco”, disse.
Erros em questões básicas
O que os futuros médicos erraram numa prova básica e por que isso acendeu um alerta sobre a formação médica no Brasil
O Fantástico teve acesso a um relatório do Inep, órgão responsável pela aplicação do exame, que detalha o desempenho dos estudantes em questões consideradas básicas para a prática médica.
Em uma delas, o enunciado descrevia um paciente com dor lombar crônica, sem sinais de alarme. Metade dos estudantes recomendou exames como ressonância magnética, radiografia ou repouso com afastamento do trabalho.
A resposta correta, porém, era explicar ao paciente a natureza benigna do quadro, prescrever analgésico e indicar atividade física leve, com reavaliação entre quatro e seis semanas.
Outra questão, classificada como fácil pelo Inep, abordava um quadro de febre, dores no corpo e vômitos persistentes, associado ao diagnóstico de dengue com sinais de alarme. Apenas 34% dos alunos acertaram.
Faculdades podem ser fechadas
Para o Cremerj, os resultados exigem medidas duras por parte do MEC.
“As escolas com nota 1 precisam ter o vestibular paralisado, porque não apresentam requisitos mínimos para formar médicos. As de conceito 2 precisam passar por redução de vagas e acompanhamento rigoroso. Algumas escolas médicas precisam, sim, ser fechadas, porque representam risco à sociedade”, afirmou Antônio Braga.
Mensalidade alta e nota mínima
Um aluno do curso da Estácio de Angra, a última colocada do Rio no ranking, aponta a falta de investimento como um dos problemas.
“Eu vejo professores capacitados, mas falta investimento da faculdade no corpo docente, para que eles se sintam mais valorizados. Isso impacta no desempenho”, disse Leonardo Celestino, que paga cerca de R$ 12 mil de mensalidade.
Em nota, a Estácio afirmou que o Enamed, de forma isolada, não é capaz de refletir a qualidade do ensino oferecido e destacou que o curso recebeu nota 4 em uma avaliação das instalações feita pelo MEC (veja a íntegra no fim da reportagem).
Debate sobre exame para médicos
Enquanto o MEC analisa quais providências serão adotadas após os resultados do Enamed, um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional propõe a criação de um exame obrigatório para a obtenção do registro profissional após a conclusão do curso de medicina — modelo semelhante ao Exame da OAB, exigido dos advogados.
“O Brasil é um dos países com maior número de escolas médicas no mundo. Com essa quantidade, é essencial que seja aprovado um exame para garantir que só médicos capacitados cheguem à população”, defendeu o presidente do Cremerj.
Veja a íntegra da nota da Estácio de Sá:
"O Enamed é um insumo importante para a melhoria do ensino. Em sua primeira edição, porém, observamos pontos que precisam ser ajustados, como o próprio órgão regulador já informou. Isoladamente, o conceito Enamed não é capaz de refletir a qualidade de ensino oferecido. As avaliações anteriores evidenciam essa limitação do Enamed. A unidade em questão tem conceito institucional 4, o segundo mais alto.
A contribuição das escolas médicas para a sociedade está longe de ser um "risco". Elas têm sido decisivas para a saúde pública. Nos últimos três anos, essa unidade repassou ao SUS quase R$ 14 milhões, viabilizando a operação do Hospital local, onde os alunos têm um campo de prática. A escola prestou mais de 600 consultas gratuitas pra população em 2025 e, atualmente, 55 alunos do município estudam com bolsas integrais."
Veja a íntegra da nota da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior:
"A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) esclarece que o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no país.
Conforme estabelecido pelo Ministério da Educação (MEC), o Enamed tem como finalidade avaliar o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos e competências previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs). O exame não avalia aptidão profissional, não habilita nem desabilita médicos e não substitui os mecanismos legais para o exercício da profissão.
Além disso, é preciso considerar dois aspectos de grande relevância. Em primeiro lugar, os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos. Essas informações só foram divulgadas após a aplicação do Enamed. Em segundo lugar, parte dos participantes estava no 11º semestre do curso e, portanto, ainda tinha cerca de seis meses de formação prática pela frente.
Também é imprecisa a informação de que menos de 60% dos formandos teriam alcançado a proficiência mínima. Esse percentual refere-se aos cursos avaliados; entre os estudantes, o índice foi de aproximadamente 70%, podendo chegar a 85%, segundo dados divulgados em dezembro pelo próprio MEC. Esses números evidenciam que tanto os cursos quanto os estudantes apresentam, sim, um padrão de qualidade relevante, especialmente considerando o elevado nível de exigência do exame, cuja estrutura, certamente, não foi desenvolvida numa modelagem formativa.
A ABMES reforça que as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional. No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo.
Acreditamos que, uma vez sanados esses equívocos e restabelecido o caráter formativo, o Enamed poderá, de forma consistente, contribuir para o aprimoramento contínuo da qualidade da formação médica no Brasil.
Atribuir ao exame a conclusão de que a formação médica no Brasil é deficiente significa reproduzir narrativas baseadas em interesses corporativistas, que atendem a uma parcela restrita e privilegiada da categoria, em detrimento das reais necessidades da população brasileira.
Diante disso, a Associação reforça o alerta para a adequada contextualização técnica dos dados e de uma interpretação responsável, distinguindo a avaliação acadêmica da aptidão profissional e evitando conclusões que não encontram respaldo na metodologia do exame.
A ABMES coloca-se à disposição para colaborar com os profissionais de imprensa, contribuindo para o aprimoramento de um instrumento avaliativo eficiente, transparente e alinhado aos princípios que, há duas décadas, norteiam o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes)."