Acervo de Sérgio Bernardes com 50 mil itens é doado à UFRJ; coleção reúne projetos que imaginaram o Rio do futuro
14/10/2026
(Foto: Reprodução) Acervo de Sérgio Bernardes com 50 mil itens é doado à UFRJ
Um túnel sob a Baía de Guanabara ligando o Rio a Niterói, duas pontes com estruturas que abrigariam hotéis e centros comerciais e prédios em espiral, com acesso ao sol, ao vento e à vegetação. Essas eram algumas das ideias do arquiteto Sérgio Bernardes para o Rio de Janeiro do ano 2000, desenhadas em 1965.
Os projetos, que imaginavam uma transformação radical da paisagem urbana, fazem parte do acervo de cerca de 50 mil itens do arquiteto, oficialmente doado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A coleção reúne croquis, fotografias, maquetes e plantas de obras que marcaram a cidade e está disponível para consulta de estudantes e pesquisadores.
O material estava guardado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da universidade havia mais de uma década. A doação oficial permite que a instituição mantenha sob sua guarda os documentos de um dos principais nomes da arquitetura modernista brasileira.
As ideias de Sérgio Bernardes para o Rio do futuro
Acervo de Sérgio Bernardes com 50 mil itens é doado à UFRJ
Reprodução/TV Globo
As propostas de Bernardes para o Rio do ano 2000 foram publicadas em uma edição especial da revista Manchete, em 1965. Na época, a travessia entre Rio e Niterói era feita por barcas, mas o arquiteto já imaginava diferentes formas de conectar as duas cidades.
Uma das pontes projetadas teria hotéis integrados à estrutura. A outra funcionaria também como porto, com espaços para atracação de navios, alfândega e centros comerciais.
“Essa ponte teria uma estrutura de hotéis. Então, você poderia tanto em Niterói quanto ficar hospedado no hotel. Aqui você vê um pedacinho de uma piscina”, explicou Alexandre Pessoa, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.
Os bairros também teriam outra configuração: edifícios em formato de espiral, pensados para aproveitar a luz solar, a ventilação e a vista em diferentes direções.
“Você tem sol 360 graus, sol, vento, verde, vista. Você nunca está de fundos para canto nenhum. É uma cidade que se descola do chão”, disse Pessoa ao explicar a concepção dos prédios.
Acervo de Sérgio Bernardes com 50 mil itens é doado à UFRJ
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Plantas revelam projetos que marcaram o Rio
Além das propostas para o futuro, o acervo guarda documentos que ajudam a contar a história da arquitetura carioca. Entre eles estão desenhos dos postos de salvamento de Copacabana, projetados por Bernardes com formato inspirado em uma quilha, para interferir o mínimo possível na paisagem da praia.
A coleção também reúne as plantas originais do Pavilhão de São Cristóvão. A maquete do projeto permite observar a cobertura que existia na inauguração do espaço, no início da década de 1960, mas que não foi reconstruída depois de ceder.
“Ele é inaugurado no início da década de 60 e tinha essa cobertura que, à época da inauguração, era o maior vão livre do mundo”, contou o arquiteto e pesquisador da FAU/UFRJ Tomas Urgal.
O material é considerado patrimônio brasileiro e foi declarado de interesse público e social. Para a universidade, manter a coleção no país e acessível à comunidade acadêmica abre novas possibilidades de pesquisa.
“Tem havido uma política de aquisição de acervo de outros arquitetos importantes para fora do Brasil. Então, o fato de ter ficado aqui, acessível a pesquisadores, acessível aos nossos alunos, abre a possibilidade de a gente conhecer esse material por dentro, ver esse pensamento vivo por dentro”, afirmou Alexandre Pessoa.
Acervo de Sérgio Bernardes com 50 mil itens é doado à UFRJ
Reprodução/TV Globo
Acervo também reúne desenhos de Burle Marx
A faculdade guarda ainda documentos de outros nomes importantes da arquitetura moderna brasileira. Entre eles estão desenhos originais de Roberto Burle Marx para o mosaico do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, conhecido como Pedregulho, em Benfica, na Zona Norte do Rio.
Projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy e concluído na década de 1950, o conjunto foi construído para abrigar funcionários públicos do então Distrito Federal.
Os documentos preservados permitem acompanhar as soluções arquitetônicas e artísticas de projetos que ajudaram a transformar a cidade e que continuam a inspirar discussões sobre os espaços urbanos.