Banda Ave Sangria recebe anistia e indenização do Estado brasileiro 50 anos após ser censurada e perseguida pela ditadura militar
30/03/2026
(Foto: Reprodução) Conselheiro da Comissão de Anistia explica impacto da censura para a banda Ave Sangria
O Estado brasileiro reconheceu a perseguição política sofrida por integrantes da banda pernambucana Ave Sangria durante a ditadura militar e concedeu anistia com indenização aos músicos, que também receberam um pedido de desculpas formal. A decisão contempla Marco Polo, Almir de Oliveira e Agrício de Carvalho Noya Filho, este último já falecido, com o benefício direcionado à esposa dele, Katia Regina Cruz de Oliveira (veja vídeo acima).
O julgamento foi realizado na quinta-feira (26), em Brasília, pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos. No Recife, foi transmitido pelo Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando de Vasconcellos Coelho, no Sítio Trindade, em Casa Amarela, na Zona Norte.
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Em entrevista ao g1, o conselheiro Manoel Moraes, da Comissão de Anistia, explicou que o reconhecimento ocorre dentro do regime de anistiado político, criado pela Constituição de 1988 e regulamentado pela Lei 10.559 de 2002.
Segundo ele, após a comprovação de perseguição por atos de exceção, é possível solicitar reparação financeira, que pode ser mensal ou em parcela única, calculada com base no tempo de repressão sofrida.
No caso da Ave Sangria, foi concedida uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil, além do valor retroativo acumulado que ainda será calculado.
Censura e perseguição
💿 Lançado em 1974, o álbum “Ave Sangria” marcou a estreia da banda e acabou sendo o único disco de estúdio do grupo pernambucano em 45 anos.
O trabalho reuniu influências do rock psicodélico, da música nordestina e de experimentações sonoras, com letras que dialogavam com liberdade de expressão, comportamento e crítica social.
Pouco tempo após chegar às lojas, o disco foi alvo da censura, especialmente por causa da música “Seu Valdir”, interpretada pelos órgãos repressivos como um “incentivo à homossexualidade”. A partir disso, o álbum foi retirado de circulação, impedindo sua distribuição e acesso pelo público.
"A música 'Seu Valdir' foi considerada pela repressão um incentivo à homossexualidade, um parâmetro extremamente absurdo hoje em dia. A ditadura era homofóbica, tratava a questão da moral dos costumes fazendo com que as manifestações culturais precisassem passar pela censura prévia e foi exatamente aí onde o grupo enfrentou as suas maiores dificuldades", contextualizou Manoel Moraes.
Segundo o conselheiro, o processo analisado pela comissão reuniu um conjunto robusto de provas e foi relatado por diferentes membros até a formação de um voto condutor.
Ele destacou que a decisão levou em conta “as graves violações” sofridas pelos integrantes, incluindo detenções, abertura de inquéritos e pressão constante por parte do regime militar.
A repressão inviabilizou a continuidade da banda, que encerrou as atividades após o lançamento de seu único álbum. Isso, segundo o conselheiro da Comissão de Anistia, resultou em prejuízos materiais e artísticos imensuráveis aos integrantes do grupo.
A banda só voltou a lançar um novo trabalho em 2019, com o álbum "Vendavais", trazendo da formação inicial o vocalista Marco Polo e o baixista Almir de Oliveira, desta vez, na guitarra.
Reconhecimento celebrado
Formação atual da banda Ave Sangria ainda conta com participação de Almir de Oliveira (centro) e Marco Polo (direita)
Flora Negri / Divulgação
A censura, embora fosse cogitada como uma possibilidade dado o momento de forte repressão, não era esperada e surpreendeu tanto os integrantes da banda quanto da Gravadora Continental, que suspendeu o contrato com a banda após o álbum de estreia.
"Foi aprovado, reconhecido e fomos anistiados. No dia, tinha umas 70 pessoas para serem julgadas também. Vários prejuízos de diversas naturezas na vida brasileira. Para mim, é um resgate inclusive da nossa democracia, porque a gente precisa mantê-la viva sempre. A gente não pode mais passar o perigo de passar por esse tipo de coisa", comentou o artista.
Para Almir de Oliveira, a repressão sofrida durante o período da ditadura se transformou em um grande trauma, já que a banda vivia um momento de ascensão após o lançamento do primeiro álbum e tinha expectativa de projeção nacional.
"Trouxe um trauma, foi uma tortura para a gente. Somos pessoas populares e vivemos o Recife numa época em que o mercado de música estava vivendo um declínio muito grande. [...] A gente foi a única banda daqui que conseguiu gravar no Rio de Janeiro, na Continental. O que deu um alento à gente, foi a possibilidade de começar uma carreira. A gente começou a tocar nas rádios, estava com a expectativa de vender muitos discos", contou Almir de Oliveira, baixista da banda.
Apesar do reconhecimento da repressão sofrida pela banda, o pagamento do benefício aos membros contemplados ainda depende da conclusão de trâmites administrativos, com a formalização por meio de portaria do Ministério dos Direitos Humanos e posterior execução pelo Ministério do Planejamento.
Manoel Moraes ressaltou, ainda, que a reparação administrativa não impede que os beneficiários busquem indenizações por danos morais na Justiça. Ele afirmou que “uma coisa não anula outra” e que novas ações podem ser movidas pelos envolvidos.
Para Moraes, o reconhecimento da anistia tem caráter simbólico e educativo, além de destacar que outros artistas que sofreram perseguições semelhantes ainda podem solicitar o mesmo tipo de reconhecimento.
"Ainda hoje, pessoas podem ser anistiadas e outros artistas que passaram por situações parecidas também podem requerer [essa reparação]. O fundamento jurídico da indenização é porque eles foram impelidos a descontinuar a banda e, naturalmente, houve um prejuízo material que agora está sendo minimamente reparado. Não é uma reparação à altura do dano, mas é uma tentativa de dizer que não se repita, que jamais aconteçam atos desse tipo no Brasil", apontou.
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