Brasil tem mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025 e bate recorde pela segunda vez em 10 anos
26/01/2026
(Foto: Reprodução) O Brasil bateu, pela segunda vez em dez anos, o recorde de afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Dados do Ministério da Previdência Social, obtidos com exclusividade pelo g1, mostram que o número de licenças voltou a crescer em 2025 e escancara um cenário de adoecimento cada vez mais amplo entre os trabalhadores do país.
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No ano passado, o g1 revelou com exclusividade que o Brasil já vivia uma crise de saúde mental, com o maior número de afastamentos por esse motivo em 10 anos em 2024.
Em 2025, o cenário não só se repete como se agrava: mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde e ampliando o peso da saúde mental no total de afastamentos. Ao todo o país teve 4 milhões de licenças do trabalho. (Leia mais aqui)
Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e, somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna.
À época do primeiro recorde, o governo discutia mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaria a incluir a saúde mental entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho. Após pressão das empresas, porém, a medida foi adiada.
E isso tem um custo alto para os cofres públicos. Só com o custo para o INSS em afastamentos, estima-se que o valor seja perto de R$ 3,5 bilhões.
Especialistas apontam que, sem mudanças estruturais, o avanço dos transtornos mentais tende a se manter, impulsionado por vínculos precários, jornadas longas e instabilidade profissional.
Nesta reportagem, você vai ler:
O raio-x dos afastamentos em 2025
O recorde de afastamento por transtornos mentais no Brasil
E por que isso está acontecendo?
O cenário por estado
E quem são as pessoas por trás dos números?
Atraso na NR-1
O raio-x do afastamento
Dados da Previdência Social mostram que foram concedidos mais de 4,1 milhões de afastamentos do trabalho por incapacidade temporária em 2025. O número é o maior em cinco anos e representa um aumento de 17,1% em relação a 2024.
ATENÇÃO: Os dados abaixo se referem ao número de afastamentos, e não ao número de trabalhadores. Uma mesma pessoa pode ter mais de uma licença ao longo do ano, e cada afastamento é contabilizado separadamente.
As dores nas costas e os problemas na coluna lideraram as concessões de benefícios no país. Em 2025, a dorsalgia (dor nas costas) foi a principal causa de afastamento de licença, com 237.113 pedidos concedidos, mantendo-se no topo do ranking.
Na sequência aparecem os outros transtornos de discos intervertebrais, como a hérnia de disco, responsáveis por 208.727 afastamentos.
🔴 Mas, se a dor física sempre esteve ocupando os maiores índices na lista, desde o ano passado, o mercado de trabalho vem enfrentando uma nova realidade: os transtornos mentais vêm aparecendo no topo entre as causas de afastamento.
A ansiedade levou a 166.489 afastamentos e a depressão a 126.608. Se somadas as doenças de saúde mental, elas já ultrapassam causas que sempre foram comuns de afastamento, como fratura de tornozelo.
Veja abaixo o top 10 das doenças que mais geraram benefícios entre 2021 a 2025.
🔎 A licença por incapacidade temporária é concedida pelo INSS quando o trabalhador precisa se afastar do trabalho por mais de 15 dias, após passar por perícia médica.
O recorde de afastamento por transtornos mentais no Brasil
Os dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos do trabalho por transtornos mentais atingiram, em 2025, o maior patamar da série recente – superando até mesmo o recorde de 2024.
Somente em 2025, mais de 546.254 afastamentos do trabalho foram por questões de saúde mental. Isso representa um aumento de 15% em relação ao ano passado.
A maior parte desses afastamentos está concentrada em dois diagnósticos: ansiedade e depressão. Os transtornos ansiosos lideram o ranking, com 166.489 licenças concedidas em 2025, seguidos pelos episódios depressivos, que somaram 126.608 afastamentos.
Ou seja, o país tem, de novo, um cenário sem precedentes: o número de afastamentos em 2025 por saúde mental é o maior em uma década.
A lista feita pelo Ministério da Previdência considera as doenças que mais geraram concessões de benefício. Entre elas, também estão: transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.
Comparado com o último ano, todas elas tiveram alta.
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E por que isso está acontecendo?
Os transtornos mentais são multifatoriais e não há uma explicação única para o que está acontecendo.
➡️ No entanto, depois de dois anos em recorde, com números sem precedentes, os especialistas apontam que a saúde do trabalhador vem sendo afetada por transformações que passam pelo modo de vida e organização em sociedade, mas, sobretudo, pelas mudanças no mercado de trabalho.
A pandemia mudou o cenário para o mercado de trabalho e, ainda que a informalidade e desemprego tenham recuado no ano passado, os especialistas explicam que há uma cicatriz.
Segundo os psiquiatras e analistas ouvidos pelo g1, situações como vínculos precários, jornadas longas e com pressão constroem um mercado que empurra as pessoas para um estresse crônico.
As pessoas estão submetidas a vínculos precários, jornadas longas, pressão por mudanças na tecnologia. O cenário atual do mercado de trabalho está empurrando as pessoas para um estresse crônico e se traduzindo no que estamos vendo. É estrutural.
O médico lembra ainda que os números são só a ponta de um problema maior. Já que o afastamento inclui apenas aqueles profissionais registrados e que se afastaram pelo INSS – licenças menores, ainda que por essas doenças, não são consideradas.
Thatiana Cappellano, mestre em ciências sociais e especialista no mercado de trabalho, reforça que o mercado vem se transformando e, consequentemente, afetando quem atua e depende dele. Ela explica que o cenário reflete um movimento de anos e que deve permanecer nos próximos anos, caso nada seja feito.
Os diagnósticos de ansiedade e depressão costumam ser demorados, o que indica que esse adoecimento vem se arrastando há muito tempo e só agora está aparecendo com mais força. Trata‑se de uma força de trabalho já desgastada.
O médico psiquiatra Wagner Gattaz, especialista em saúde mental no ambiente de trabalho, explica que a questão não é mais só de trabalho ou só de saúde, de forma isolada, e que são necessárias medidas mais duras para transformar esse cenário.
➡️ O psiquiatra atua em uma empresa de consultoria que analisou mais de 150 mil trabalhadores para analisar a prevalência de doenças de saúde mental e o custo aos empregadores. Eles descobriram que as doenças representam um custo de 6% do total da folha de pagamento. Em algumas empresas, isso representa milhões.
“É preciso que a doença mental não seja o vilão da história. Um dos estigmas é que é fingimento, que as pessoas estão aumentando sua dor. Como psiquiatra, preciso dizer, é difícil simular um quadro de sofrimento. E isso é tão grave que estamos vendo o aumento das taxas de suicídio no país”, explica Gattaz.
O INSS não informou o quanto custou ao país essa crise, mas com base nos dados de 2024, as pessoas passaram em média três meses afastadas, recebendo cerca de R$ 2.140 por mês.
Considerando esses valores, o impacto financeiro aos cofres públicos pode ter chegado a R$ 3,5 bilhões.
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O cenário por estado
Em números absolutos, os estados mais populosos concentram a maior parte das licenças concedidas em 2025, mas a análise proporcional à população revela um cenário mais complexo, com estados menores apresentando taxas mais altas de afastamento por saúde mental.
São Paulo lidera com folga o ranking nacional, com 149.375 afastamentos, seguido por Minas Gerais (83.321), Rio Grande do Sul (46.738) e Rio de Janeiro (41.997). (Veja no gráfico acima)
Quando os dados são analisados proporcionalmente à população, no entanto, o mapa muda. Santa Catarina, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal aparecem entre as unidades da federação com as maiores taxas de afastamento por transtornos mentais por 100 mil habitantes, superando estados mais populosos.
➡️ Não há uma explicação para o índice de cada estado, mas os especialistas lembrar consequências de situações graves, como as enchentes no Rio Grande do Sul, por exemplo.
Já estados do Norte e parte do Nordeste apresentam taxas mais baixas quando se observa o número de afastamentos por habitante.
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E quem são as pessoas por trás dos números?
De acordo com os dados, as mulheres representam mais de 60% dos afastamentos por saúde mental, enquanto homens são pouco mais de 30%.
Especialistas apontam que essa desigualdade está diretamente ligada a fatores sociais, como a menor remuneração, a responsabilidade do cuidado familiar e a violência.
Mulheres ganham menos que homens em 82% das áreas, segundo levantamento do IBGE. (leia mais aqui)
O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025 com quatro mulheres mortas a cada hora (leia mais aqui)
Para Thatiana Cappellano, as diferenças sociais também se refletem no mercado de trabalho e, por isso, a questão precisa ser analisada sob a perspectiva de gênero.
“É preciso olhar pela perspectiva de gênero. As mulheres enfrentam duplas e triplas jornadas, que vão muito além do trabalho formal, envolvendo cuidados com a casa, a família e outras responsabilidades. Essa sobrecarga mental constante pesa diretamente sobre elas”, explica.
Capellano ainda reforça que esse impacto na mulher não é só uma questão de saúde, mas também econômica. Segundo o último Censo, as mulheres mantêm financeiramente 49,1% dos lares brasileiros. Isso significa que 35 milhões de famílias pelo país são mantidas por elas.
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Atraso na NR-1
A solução que Gattaz e outros especialistas citam já existia: a atualização da NR-1. No ano passado, o governo anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes de saúde no ambiente de trabalho.
Com a atualização, passaria a contemplar também os riscos psicossociais.
🔎 O que isso significa? O MTE passaria a fiscalizar as empresas, podendo inclusive aplicar multas caso encontrasse trabalhadores que estão passando por situações que incluem metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais, falta de autonomia e condições precárias de trabalho.
No entanto, após pressão de empresas, o Ministério do Trabalho cedeu e adiou por mais de um ano a validade da medida, que tem previsão para maio deste ano.
Para Arthur Danila, psiquiatra que estuda o impacto do trabalho na saúde mental, o recorde pelo segundo ano consecutivo poderia ser evitado por medidas mais duras.
“É um ano de atraso. As estatísticas mostram que o assunto é persistente e atrasar contribui para vermos índices cada vez maiores”, explica.
Gattaz aponta que é preciso fazer valer a NR-1, acelerar as discussões de leis que certificam empresas promotoras da saúde mental e pensar políticas públicas para que o mercado de trabalho possa melhorar.
"É preciso que o poder público responda a esses dados. Adotar políticas diminui o sofrimento das pessoas, aumenta a produtividade delas e da nação", explica.
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