Corrente oceânica que regula o clima global vai enfraquecer mais do que se pensava, aponta novo estudo

  • 16/04/2026
(Foto: Reprodução)
Ilustração mostra o padrão da Atlantic Meridional Overturning Circulation (AMOC) NOAA Uma corrente oceânica responsável por regular boa parte do clima do planeta vai enfraquecer significativamente mais do que o previsto até o fim deste século — e os cientistas estão preocupados com isso. É o que aponta um estudo publicado na última quarta-feira (15) na revista "Science Advances", realizado por pesquisadores franceses da Universidade de Bordeaux e do centro de pesquisas Inria. O sistema estudado é a AMOC (sigla em inglês para Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico), uma espécie de "esteira transportadora" de águas oceânicas que leva calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Ao chegar perto do Ártico, essa água quente e salgada esfria, afunda e retorna às profundezas do oceano, completando um ciclo vital para a distribuição de calor pelo planeta. O problema é que esse ciclo está ficando mais lento. E agora, um novo método de análise indica que a desaceleração será bem mais grave do que a maioria dos modelos climáticos havia estimado. O Oceano Atlântico perto da costa de Funchal, capital do arquipélago da Madeira, em Portugal. Domínio Público Por que os modelos erravam Os modelos climáticos usados pelo IPCC — o painel científico da ONU sobre mudanças climáticas — previam uma desaceleração de 32% na AMOC até 2100, em um cenário de emissões intermediárias. O novo estudo, porém, chegou a uma estimativa de 51%, com margem de erro de 8 pontos percentuais. Ou seja: uma queda 60% mais intensa do que a projetada pela média dos modelos. A diferença está na metodologia. Os pesquisadores combinaram os modelos climáticos com dados reais do oceano (temperatura e salinidade da superfície do Atlântico) para identificar quais modelos são mais fiéis à realidade. O resultado foi revelador: os modelos que melhor reproduzem as condições reais observadas nos oceanos são justamente os mais pessimistas sobre o futuro da AMOC. Em outras palavras, os cientistas descobriram que estavam sendo otimistas demais — e que a realidade tende a ser pior do que a média das previsões indicava. Parte desse erro vinha do Atlântico Sul. Os modelos costumavam representar a salinidade da superfície dessa região como mais baixa do que ela é de fato, o que fazia a circulação parecer mais estável. Quando os pesquisadores corrigiram esse ponto com dados observacionais, o enfraquecimento projetado aumentou significativamente. Segundo o estudo, quase metade da diferença — cerca de 47% — está ligada justamente à salinidade no Atlântico Sul. 🌊 Mas por que isso é importante? A AMOC é uma parte vital do movimento das águas oceânicas, fenômeno que tem um impacto importante na distribuição do calor pelo nosso planeta. Tecnicamente, esse conceito é chamado de circulação termohalina. Como cerca de 90% do calor global está armazenado nos oceanos, as mudanças nessas correntes influenciam o clima em diversas regiões do globo. FOTOS: Onda de calor causa incêndios e leva temperaturas ao extremo no Hemisfério Norte O que muda na prática A AMOC já estava no seu ponto mais fraco em 1.600 anos, segundo estudos anteriores, e sinais de alerta de um possível colapso foram identificados por cientistas desde 2021. O que o novo trabalho faz é mostrar que os modelos considerados pessimistas eram, na verdade, os mais realistas. Uma desaceleração tão intensa — próxima dos 51% projetados — se enquadra no que o próprio IPCC classifica como um "enfraquecimento substancial" da AMOC. E as consequências disso seriam amplas e graves. Segundo o artigo, uma das principais seria o deslocamento para o sul da zona de convergência intertropical, a faixa de chuvas que alimenta a agricultura do Sahel, região semiárida da África que já enfrenta crises alimentares recorrentes. Além disso, há o risco de invernos muito mais rigorosos e secas intensas na Europa Ocidental, além de elevação adicional do nível do mar ao redor do Atlântico. Imagem mostra as correntes do Atlântico Norte, com cores diferentes para indicar águas mais quentes em laranja e águas mais frias em verde e azul. Em cinza, estão representados os continentes. NASA GODDARD SPACE FLIGHT CENTER O estudo, contudo, não afirma que o colapso da AMOC é inevitável neste século, mas aponta que o sistema está mais próximo desse limiar do que se imaginava. E há um agravante: os modelos usados na pesquisa ainda não incorporam o derretimento da calota de gelo da Groenlândia, que também está injetando água doce no oceano e pode acelerar ainda mais o processo. Os autores reconhecem essa limitação no artigo e apontam que futuros estudos devem incluir esse fator. Para os pesquisadores, identificar onde os modelos climáticos erram é tão importante quanto projetar o futuro: é a partir dessas correções que as estratégias de adaptação poderão ser mais bem calibradas — e que a comunidade científica poderá produzir estimativas cada vez mais confiáveis sobre um dos sistemas mais complexos do planeta. Em fevereiro de 2025, um estudo do serviço meteorológico britânico e da Universidade de Exeter, publicado na revista "Nature", havia apontado que o colapso completo da AMOC neste século era improvável, mas que o sistema seguiria enfraquecendo. O novo artigo não contradiz essa conclusão, mas indica que esse enfraquecimento será consideravelmente maior do que o estimado até agora. Ciclone Narelle deixa o céu vermelho na Austrália

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/04/16/corrente-oceanica-que-regula-o-clima-global-vai-enfraquecer-mais-do-que-se-pensava-aponta-novo-estudo.ghtml


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