Explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo

  • 19/04/2026
(Foto: Reprodução)
Donald Trump em evento de fevereiro de 2024, com um par de tênis Trump AP Photo/Manuel Balce Ceneta Por muitos anos, os presidentes dos Estados Unidos tomaram cuidado para não dar a impressão de que estavam ganhando dinheiro devido ao cargo. Harry Truman não permitiu que seu nome fosse usado em nenhum empreendimento, mesmo após deixar a presidência. Richard Nixon ficou tão preocupado com a possibilidade de um irmão se beneficiar de suas conexões que chegou a mandar instalar escutas em seu telefone. Já George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de tomar posse. O presidente Donald Trump tem seguido um caminho diferente. A empresa de imóveis de sua família está crescendo internacionalmente em um ritmo nunca visto desde que foi criada, há um século, com os acordos potencialmente influenciando decisões que vão desde tarifas a ajuda militar. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Veja os vídeos que estão em alta no g1 Comandados pelos filhos de Trump, Eric e Donald Jr., os negócios da família passaram a incluir criptomoedas. Essas novas atividades trouxeram bilhões de dólares, mas também levantaram dúvidas sobre possíveis vantagens dadas a grandes investidores. Os irmãos também se juntaram ou investiram em várias empresas que buscam fazer negócios com o governo comandado por seu pai. Recentemente, Eric e Donald Jr. conseguiram uma parte milionária em uma empresa que fabrica drones armados e que tenta vender seus produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo, que dependem da proteção militar dos Estados Unidos. A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer problema ético. Quando foi perguntado sobre o tema em um evento de criptomoedas, Donald Jr. respondeu: “Francamente, isso já cansou. O problema dos conflitos de interesse remonta à primeira eleição de Trump. Especialistas em ética governamental e historiadores argumentam, no entanto, que o tema é mais preocupante do que nunca. Segundo eles, os conflitos se acumulam no segundo mandato e são considerados sem precedentes, flagrantes e perigosos para a democracia. “Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump”, disse Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton. Donald Jr. e Eric, filhos de Donald Trump AP Photo/Alex Brandon Boom de negócios no exterior Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou nenhum acordo fora dos Estados Unidos. Pouco mais de um ano depois do início do segundo mandato, já são oito negócios. Segundo a empresa, todos eles estão seguindo a regra criada pela própria Trump Organization de não negociar diretamente com governos estrangeiros. No entanto, em países onde o governo tem muito poder, é difícil que não haja algum tipo de influência, principalmente quando o dono do negócio é o presidente em exercício. No Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país. No Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro. Já na Arábia Saudita, um resort chamado “Trump Plaza” está sendo erguido no Mar Vermelho por uma empresa próxima à família real. Não dá para saber ao certo se esses negócios mudaram decisões dos Estados Unidos para beneficiar esses países, mas eles conseguiram o que buscavam: o Qatar teve acesso à tecnologia americana, o Vietnã conseguiu redução de impostos e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate. A Trump Organization também saiu ganhando, recebendo dezenas de milhões de dólares em taxas. Quando perguntada sobre esses projetos, a Trump Organization afirmou que não fez negócios com governos, dizendo que a empresa da Arábia Saudita é privada e que está apenas “colaborando” com a empresa do Catar, sem criar uma “parceria” que contrariaria suas próprias regras. Emirados Árabes Unidos e criptomoedas Outro negócio que gera dúvidas sobre conflitos de interesse foi revelado em uma reportagem do Wall Street Journal em janeiro, um ano depois de ter sido fechado. Pouco antes da posse, a família Trump vendeu quase metade da empresa de criptomoedas World Liberty Financial para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos, comandada por um membro da família real, por US$ 500 milhões. Outro grupo dos Emirados, um fundo do governo, investiu na plataforma de criptomoedas Binance usando US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty. Com isso, a empresa de Trump pôde aplicar esse dinheiro em investimentos considerados seguros, como títulos públicos, e ficou com dezenas de milhões de dólares em juros. Pouco tempo depois, o governo Trump cancelou uma regra do governo de Joe Biden e permitiu que os Emirados Árabes Unidos comprassem chips avançados dos Estados Unidos. Mais tarde, o fundador da Binance, Changpeng Zhao, recebeu um perdão de Trump, mesmo após ter se declarado culpado por não impedir o uso da plataforma por criminosos que movimentavam dinheiro de casos envolvendo abuso sexual infantil, tráfico de drogas e terrorismo. Questionado, o advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios da Binance com a família Trump e o perdão recebido. “Qualquer alegação de troca de favores por parte da Binance ou Changpeng Zhao, ou tratamento financeiro preferencial, é uma clara distorção do registro público”, disse Teresa Goody Guillen em um e-mail à AP. Sobre o perdão, a Casa Branca afirmou que Zhao foi punido de forma injusta pelas autoridades federais, em uma “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”. A World Liberty também negou qualquer conflito de interesse, dizendo que o negócio com os Emirados Árabes Unidos não tinha ligação com a decisão sobre os chips. Bilhões em criptomoedas A World Liberty também criou outra forma de renda para uma nova empresa de Trump, vendendo “tokens de governança”. Esses tokens dão ao comprador direito a voto, mas não o tornam dono da empresa. Só no ano passado, foram arrecadados US$ 2 bilhões. Com isso, a família Trump ganhou centenas de milhões de dólares por sua participação na World Liberty e por um acordo que garante parte dessas vendas. Um dos principais compradores desses tokens foi Justin Sun, um bilionário do setor de criptomoedas que, por ser estrangeiro, é proibido pela lei dos EUA de fazer doações a políticos americanos. Entre a eleição e a posse de Trump, Sun gastou US$ 75 milhões nesses tokens. Em fevereiro de 2025, um processo federal contra Sun por enganar investidores foi suspenso. O caso terminou no mês passado, com uma multa de US$ 10 milhões. Outro produto lançado foram as moedas “meme” com o rosto de Trump, colocadas à venda pouco antes de ele começar o segundo mandato. Nos quatro meses seguintes, essas moedas renderam US$ 320 milhões, a maioria indo para empresas ligadas a Trump, segundo a empresa Chainalysis, que monitora transações em blockchain. Esse valor é mais que o dobro do que foi arrecadado em quatro anos com o hotel Trump International, em Washington D.C., durante o primeiro mandato. Trump International Hotel, em Washington DC, em foto de 2021; empreendimento foi vendido no ano seguinte AP Photo/Julio Cortez Ao contrário de lobistas ou doadores de campanha que tentam influenciar Trump, quem compra essas moedas pode fazer isso sem se identificar. Justin Sun está entre os que optaram por tornar sua aquisição pública, gastando US$ 200 milhões nas moedas e conseguindo participar de uma festa exclusiva com Trump para os maiores compradores. Outro empreendimento da família, a American Bitcoin, abriu capital em setembro, o que deu a Donald Jr. e Eric um valor estimado de US$ 1 bilhão em ações na época. Meses antes, Trump anunciou a criação de uma reserva nacional de bitcoin, o que fez o preço da moeda disparar. Os negócios do presidente não são totalmente imunes à notória volatilidade das criptomoedas. O valor do bitcoin e de outros tokens digitais despencou desde então, assustando investidores. Tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas meme de Trump perderam 90% do valor desde o pico. No mês passado, Trump disse que faria mais um jantar com os maiores compradores de suas moedas meme, o que fez o valor das moedas subir antes de cair de novo. “Quaisquer restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido completamente”, diz o historiador da Universidade Columbia Timothy Naftali. Para Trump, pessoas não se importam com o tema Quando perguntada sobre a reportagem, a Casa Branca afirmou que Trump age de “maneira ética” e que qualquer sugestão diferente é “mal informada ou maliciosa”. A porta-voz Anna Kelly reforçou que os bens de Trump estão sob a administração dos filhos e disse que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. “Não há conflitos de interesse”, afirmou. Em outro comunicado, a Trump Organization disse estar “totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse” e acrescentou que “a insinuação de que a política enriqueceu a família Trump é infundada.” Em janeiro, Trump declarou ao The New York Times que, sobre possíveis conflitos de interesse, “eu descobri que ninguém se importava, e eu posso”, fazendo referência à exceção que o presidente tem na lei federal que impede funcionários públicos de manterem interesses financeiros em negócios afetados por decisões do governo. Não está claro se Trump está certo ou errado sobre o que pensam os americanos, mas essa opinião parece estar mudando, até mesmo entre os republicanos. Em uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age de forma ética, número menor do que os 55% registrados no início do segundo mandato, um ano antes. Fortuna em ascensão A revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de ele voltar à presidência, o que chama atenção diante das dificuldades que a Trump Organization enfrentou no passado. O Trump International Hotel em Washington, D.C., nunca teve lucro antes de ser vendido em 2022. Duas redes de hotéis da marca Trump, voltadas para a classe média, fecharam no primeiro mandato por falta de clientes. Alguns prédios de apartamentos tiraram o nome Trump das fachadas porque perceberam que, em vez de atrair compradores, estavam afastando-os. Nenhum novo prédio residencial nos Estados Unidos está usando o nome Trump na entrada durante o segundo mandato, mas em Washington, onde há muitos negócios com o governo, o nome ainda tem valor. Donald Jr., o filho mais velho de Trump, abriu um clube privado em Georgetown, Washington, cobrando até US$ 500 mil de quem quer ser membro fundador. Poucos clubes cobram valores parecidos, como o Yellowstone Club, em Montana, que oferece acesso a resorts, pistas de esqui e muitos restaurantes em uma área exclusiva. Chamado de “Executive Branch” (“Poder Executivo”), o clube de Donald Jr. fica no subsolo de um prédio, mas oferece algo diferente: estar perto do centro do poder. Bíblias, guitarras e tênis Outros presidentes e suas famílias também já buscaram lucros de formas que prejudicaram a imagem do cargo. Hunter Biden foi pago como diretor de uma empresa de gás ucraniana enquanto seu pai, Joe, era vice-presidente. A Fundação Clinton recebeu doações de outros países, mas isso foi depois que Bill Clinton deixou a presidência. Já o irmão de Jimmy Carter, Billy, ganhou dinheiro usando o nome da família para vender cerveja. No caso de Trump, ele mesmo está vendendo produtos como Bíblias “God Bless the USA” por US$ 59,99, tênis “Never Surrender” por US$ 399 e guitarras elétricas que podem custar até US$ 11.500 —frete não incluído — para quem quiser um modelo autografado pelo presidente. Ano novo, lucros novos Nos primeiros meses do segundo ano de Trump de volta à presidência, o ritmo dos negócios continuou forte. Em janeiro, a Trump Organization anunciou o terceiro acordo com a Arábia Saudita em menos de um ano, desta vez para construir mansões, um hotel e um campo de golfe perto da capital, Riad. Agora, a “colaboração” é com uma empresa ainda mais ligada ao governo, pois pertence ao fundo soberano do país, comandado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Quando questionada pela AP se esse projeto desrespeita a promessa de não fazer negócios com governos estrangeiros, a Trump Organization respondeu que não “faz negócios com nenhuma entidade governamental”, mas não comentou sobre esse caso em particular. Enquanto isso, a nova empresa de drones de Eric e Donald Jr. tenta fechar contratos com o Pentágono. Outras empresas que têm acordos com o governo e que receberam investimentos dos irmãos no último ano estão recebendo dezenas de milhões de dólares em dinheiro público. Entre elas estão uma fabricante de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados, de acordo com registros oficiais. Quando perguntado sobre possíveis conflitos depois do acordo dos drones, Eric afirmou: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.” Um representante de Donald Jr. disse que ele não “interage” com o governo sobre as empresas em que investe, e acrescentou que “a ideia de que ele deveria parar de viver sua vida e sustentar seus cinco filhos só porque seu pai é presidente é, francamente, um padrão risível e ridículo.” Uma nova empresa de investimentos, da qual os irmãos se tornaram conselheiros no ano passado, arrecadou US$ 345 milhões em uma oferta pública inicial para comprar partes de empresas americanas que devem ajudar o pai deles a fortalecer a indústria dos Estados Unidos. Depois que a AP perguntou ao principal advogado de Trump sobre um trecho de um documento oficial dizendo que a empresa buscaria negócios que pedem incentivos do governo, ele apresentou um novo documento com essa parte removida. Zelizer, o historiador de Princeton, diz que espera que os próximos presidentes sejam mais cuidadosos ao enriquecer, mas se preocupa com o exemplo que Trump está dando. “Ele mostrou politicamente que não há preço a pagar para ganhar dinheiro”, disse. “Você sabe que pode seguir por esse caminho.”

FONTE: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/04/19/explosao-de-negocios-da-familia-trump-abre-caminho-para-presidentes-dos-eua-lucrarem-com-o-cargo.ghtml


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