Fantástico acompanha combate ao ebola, que avança em meio a crise humanitária na República Democrática do Congo
27/09/2026
(Foto: Reprodução) Fantástico mostra o sofrimento em torno do surto de ebola que matou quase 4 mil em 4 meses
A epidemia de ebola na República Democrática do Congo já matou quase 4 mil pessoas desde maio e continua avançando. O surto se espalhou por sete províncias, e o número de infectados dobra a cada 20 dias.
A doença ocorre em meio a conflitos internos, que tiraram de cada mais de 7 milhões de pessoas. Os repórteres Sonia Bridi e Paulo Zero, do Fantástico, embarcaram no avião da Organização das Nações Unidas (ONU) a convite da Monusco, missão de paz no país comandada por um general brasileiro.
O destino é Bunia, o epicentro da epidemia de ebola e que só recebe aviões da ONU e de organizações humanitárias. Devido ao surto, voos comerciais levam apenas até Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.
Epidemia de ebola na República Democrática do Congo: saiba como ajudar
Epidemia de ebola na República Democrática do Congo matou quase 4 mil pessoas desde maio
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A origem do vírus ainda não é completamente conhecida. O principal suspeito de ser seu hospedeiro é o morcego da fruta, consumido por parte da população.
O vírus do ebola, que tem o formato de um cordão, entra por mucosas ou pequenos cortes na pele e engana as células de defesa que deveriam combater o invasor. Ele se multiplica até que as células explodam, espalhando uma imensa carga viral no organismo.
O vírus ataca órgãos como o fígado e o baço, que param de produzir as substâncias pela coagulação do sangue. Em casos graves, o paciente pode sofrer hemorragias e uma resposta inflamatória intensa, que leva à falência de vários órgãos.
Há quatro variantes do ebola que provocam a doença em humanos e já foram identificados. Para a mais comum, Zaire, existe vacina e remédio antiviral. Mas o surto atual tem uma variante mais rara, chamada de Budinbugyo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) testa uma vacina e coordena testes com antivirais existentes para encontrar um que funcione contra o Budinbugyo. Mesmo sem remédio, é possível tratar e curar pacientes como hidratação, nutrição, isolamento e prevenção de complicações.
Centro de tratamento
No Centro de Tratamento de Ebola dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), os pacientes são mantidos em áreas de isolamento, as chamadas "zonas vermelhas". Os profissionais entram nesses locais usando macacão, luvas, máscaras, gorro e proteção para o rosto.
Quem está na chamada "zona verde" acompanha os pacientes por janelas de plástico. O protocolo é rígido porque o vírus é transmitido pelo contato direto com fluidos corporais, como sangue, vômito e secreções.
Centro de Tratamento de Ebola dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), na República Democrática do Congo
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Mathias Vermaelen, pediatra do MSF, é holandês, tem pai brasileiro e tem atendido pacientes no local. "Eu cheguei aqui há duas semanas. E comecei a trabalhar no primeiro dia. A gente trabalha seis em sete dias, mais ou menos. É muito intenso", afirmou.
Em uma das visitas do Fantástico, Mathias atendeu a um menino de 7 anos que estava desidratado e tinha problemas pulmonares e diarreia. O garoto precisou receber hidratação pela veia, mas morreu naquela noite.
A cada quatro mortes de ebola, três foram na cidade de Bunia e arredores. A rotina na região mudou: até os marceneiros passaram a produzir principalmente caixões, porque os enterros precisam ser realizados rapidamente para evitar novos contágios.
Mathias Vermaelen, pediatra do MSF
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Na República Democrática do Congo, tocar o corpo de uma pessoa morta faz parte do ritual funerário. Mas, como o vírus continua capaz de infectar mesmo após a morte, os enterros precisam ser rápidos.
Por isso, a Cruz Vermelha mobilizou voluntários para um trabalho perigoso e fundamental. Com roupas de proteção, eles garantem uma despedida digna e com segurança.
Na cidade, a rotina parece não ter mudado. Feirantes dizem ter medo do ebola, mas acreditam estarem seguras se mantiverem certo distanciamento.
A aparente normalidade pode ser explicada em parte porque congoleses tiveram que aprender a tocar a vida em meio a tantas adversidades. Há anos, a população convive com ataques de grupos armados e doenças transmissíveis que nunca abandonaram o país como cólera, febre tifoide e malária.
Os primeiros sintomas de ebola podem ser confundidos com essas outras doenças, o que costuma levar à demora em procurar tratamento.
Enfermeiros usam janela de plástico para monitorar pacientes contaminados pelo ebola
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Início da pandemia
A epidemia de ebola foi declarada em maio, mas os primeiros sinais podem ter aparecido ainda em janeiro.
"Suspeitamos que a epidemia começou três ou quatro meses antes do alerta. Os sistemas de controle de surto de doenças sofreram muito com os cortes na ajuda humanitária internacional", disse Alvert Stern, coordenador de Emergência do MSF na cidade de Beni, no República Democrática do Congo.
O ebola encontrou um sistema de saúde fragilizado. Depois que a pandemia foi decretada, o governo americano ajudou a financiar o combate ao ebola.
Mas no início do atual governo de Donald Trump, o bilionário Elon Musk, o homem mais rico do mundo, foi nomeado para cortar drasticamente o financiamento do programa humanitário dos Estados Unidos.
Elon Musk foi nomeado por Donald Trump para cortar drasticamente financiamento de programa humanitário dos EUA
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Um dos lugares afetados é uma maternidade em Beni, onde a enfermeira brasileira Érica Silva Rocha trabalha pelo MSF. "O ebola é uma crise dentro de outra crise. As pessoas continuam adoecendo de outras coisas. As mulheres continuam grávidas. Continuam parindo", afirmou.
Érica foi à maternidade para treinar equipes e adaptar o local para a epidemia. Na sala de parto, faltam equipamentos e até a água precisa ser armazenada em galões.
Quando gestantes estão infectadas pelo vírus, há um grande perigo de contaminação para a equipe de saúde, que é obrigada a fazer escolhas duras. Érica explica que a equipe precisa limitar procedimentos, o que provoca uma sensação de impotência.
A enfermeira brasileira Érica Silva Rocha trabalha no combate ao ebola na República Democrática do Congo
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Um dos sobreviventes é Toiabo Ale, um bebê prematuro que nasceu contaminado pelo ebola. A mãe morreu durante o parto, e o pai morreu dias depois.
Os médicos chegaram a considerar que não havia chances de sobrevivência, mas o bebê se recuperou e passou a ganhar peso em uma creche que acolhe vítimas da epidemia.
A estudante de medicina Neema decidiu cuidar de órgãos do ebola. "Eu adoro ficar com as crianças porque eu gosto muito de pediatria. Gosto de cuidar deles, vê-los sorrir. Não é fácil perder a mãe tão novinho, ficar sem ninguém e ter que se adaptar a alguém desconhecido", contou.
Toiabo Ale, bebê prematuro que nasceu contaminado pelo ebola e que perdeu a mãe no parto e o pai, dias depois
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Falta de informação dificulta tratamento
A falta de informação ainda faz as pessoas terem medo de ir aos centros de tratamento. Metade dos pacientes morre – e o boato de que as pessoas estavam sendo mortas nos hospitais provocou ondas de violência.
A Monusco, força de paz da ONU, montou bases nos locais afetados. Diariamente, uma atualização dos casos orienta as decisões sobre para onde aumentar as patrulhas e direcionar o transporte de material.
A estudante de medicina Neema decidiu cuidar de órgãos do ebola na República Democrática do Congo
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Famílias que não procuram hospitais podem ser contaminadas enquanto cuidam de parentes doentes em casa. Jermè procurou ajuda depois de perder 12 parentes e, hoje, depois de ter após ser curado, ajuda a cuidar dos pacientes.
A epidemia atual é a mais grave das 17 registradas na República Democrática do Congo. Especialistas do MSF avaliam que as condições geográficas e a fragilidade da estrutura de saúde tornam o controle do surto difícil.
Enquanto a epidemia avança, seis em cada dez pessoas que morrem de ebola ainda morrem dentro de casa, sem chegar a um hospital.
A cada quatro mortes de ebola, três foram na cidade de Bunia e arredores
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