Inclusão na avenida: amigos surdos, 4 irmãos cegos e um menino autista vivem carnaval em área inclusiva no Sambódromo

  • 15/02/2026
(Foto: Reprodução)
Amigos surdos, irmãos cegos e menino autista vivem o carnaval em área inclusiva no Anhembi A vibração do samba atravessa o chão da avenida, ecoa no corpo e transforma o carnaval em uma experiência que vai além do som e da imagem. Foi assim na área de inclusão do Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, onde histórias de amizade, família e pertencimento mostraram que os desfiles das escolas de samba da capital também podem e devem ser acessíveis. O g1 visitou neste sábado (15) o espaço de acessibilidade que a prefeitura disponibiliza em seu camarote para pessoas com deficiência (veja mais abaixo como funciona). E logo na chegada ao espaço, cinco amigos surdos chamavam atenção pela animação. Eles se conhecem desde a infância, estudaram juntos na capital paulista e decidiram viver o desfile lado a lado. Sambavam, sorriam e acompanhavam cada detalhe sentindo a vibração da bateria. A comunicação com o g1 foi feita com apoio do intérprete de Libras Deivid Ramos. “A acessibilidade aqui está muito fácil. Tem um intérprete que vocês estão vendo aqui. É muito ruim se não tiver comunicação. Então, é melhor com comunicação. É nossa primeira vez e estamos emocionados. Muito feliz de estar aqui", disseram Luiz Roberto Pires Amaral, auxiliar administrativo, e Natália Maria Moura, analista bancária, ambos surdos. Para eles, a surdez não impede de aproveitar o carnaval. Mesmo sem ouvir o samba, o grupo sente o ritmo, a vibração e a energia da avenida, sensações que tornam a experiência completa. Cinco amigos de infância que são surdos e se reuniram para acompanhar o segundo dia de desfiles das escolas de samba de São Paulo Paola Patriarca/g1 Poucos metros adiante, outra cena emocionava quem passava pelo espaço. O pequeno Rio Sora, de 8 anos, acompanhava atento o desfile ao lado da mãe, Luciana Campos. Autista, ele é apaixonado por arte urbana, grafite, São Paulo e carnaval, um amor que começou pela televisão e ganhou vida na avenida. "A primeira vez foi o ano passado, que ele viu pela TV, e a gente pensou em testar [pessoalmente]. A gente veio com ele, trouxe abafador, mas ele desistiu de usar porque o som da bateria ele curte muito. Ano passado ele ficou até 4h30", afirmou a mãe. E complementou: "Eu acho o espaço incrível porque traz a possibilidade de incluir mais pessoas para o carnaval. Não é porque você tem uma deficiência, que você não curte. Isso aqui é uma festa maravilhosa". O espaço também acolheu pessoas cegas e com deficiência visual, que acompanharam o desfile por meio da audiodescrição, um serviço que transforma imagens, cores, fantasias e movimentos em palavras. “Audidescrição é maravilhosa. A gente consegue entender tudo o que está acontecendo. Eu consigo receber a emoção. É muito legal”, afirmou Maria Roseli, cega. “MInha expectativa é maravilhosa. Eu espero que eu consiga ver, porque a audiedescrição nos permite enxergar o que está acontecendo. Conforme ela descreve como está a alegoria, a gente imagina na nossa mente o que ela está falando. É muito legal. Eu desfilo na escola de samba Rosas de Ouro há 16 anos”, disse Roselene de Souza Celoto, também cega, antes de começar o desfile. Luciana Campos com seu filho de 8 anos Paola Patriarca/g1 Quem dá voz à avenida para o público com deficiência visual é Vanessa Aparecida Campos, de 31 anos, profissional de audiodescrição há cinco anos e em seu segundo carnaval no Anhembi. “É uma emoção sempre muito grande estar aqui porque a gente pode assistir ao desfile, descrever tudo, A gente se preocupa em descrever as fantasias, os detalhes, as cores, passar tudo isso para as pessoas com deficiência visual. Até porque, eles fazem questão de saber desses detalhes e também tem o fato de que muitas pessoas com deficiência visual perdem a visão já na fase adulta. Então, eles têm memória das cores, dos movimentos, e a gente ajuda a trazer novamente essa memória", explicou a profissional. O avanço da estrutura e da comunicação também foi destacado pelo ator surdo Léo Castilho, que acompanhava o desfile na área inclusiva com seus amigos de infância. “O espaço está evoluindo. Eles adaptaram a comunicação para as pessoas com deficiência, para os cegos. Isso tudo foi pensado. Eu percebi pessoas que sabem libras também. Isso é muito bom", afirmou. Sobre o que mais gosta no carnaval, ele resumiu o sentimento que tomava conta do espaço. “Então, eu gosto do samba, da cultura brasileira, sabe? Dessa questão da dança, a letra das músicas. Apesar do fato de não ouvir, eu sinto como todo mundo. Sinto a energia", ressaltou. Quatro irmãos cegos usaram o serviço de audiodescrição no Sambódromo do Anhembi Paola Patriarca/g1 Como funciona a área inclusiva no carnaval de SP As ações de acessibilidade fazem parte das iniciativas da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Durante o carnaval, a pasta promove projetos que ampliam o acesso à cultura e garantem que pessoas com deficiência possam viver plenamente a experiência da folia. Entre eles está o Samba com as Mãos, que traduz os sambas-enredo dos Grupos Especial e de Acesso I para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), com vídeos publicados nas redes sociais da Secretaria (@smpedsp). Para pessoas cegas e com deficiência visual, o serviço de audiodescrição é transmitido em tempo real pelo YouTube da SMPED, direto de uma cabine instalada no Sambódromo. Outra iniciativa é a atuação da Central de Intermediação em Libras (CIL), que ganhou um ícone exclusivo para o Carnaval 2026 no aplicativo CIL-SMPED. A ferramenta permite que pessoas surdas e com deficiência auditiva acionem serviços de emergência, como Samu, Corpo de Bombeiros e polícia, por meio de videochamadas com intérpretes de Libras. O aplicativo é gratuito, funciona 24 horas por dia, não consome dados móveis e está disponível para Android e iOS. Na avenida, a acessibilidade transforma o desfile em pertencimento. Entre vibrações, palavras sinalizadas e imagens descritas, o carnaval mostra que a festa só é completa quando é para todos.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/15/inclusao-na-avenida-amigos-surdos-4-irmaos-cegos-e-um-menino-autista-vivem-carnaval-em-area-inclusiva-no-sambodromo.ghtml


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