Mãe transforma sofrimento do filho em invenção para proteger jovem e outros pacientes gastrostomizados na Bahia

  • 18/07/2026
(Foto: Reprodução)
Mãe transforma sofrimento do filho em invenção para proteger jovem e outros pacientes Uma mãe de Salvador transformou a dor do filho, que tem paralisia cerebral e sofre com lesões constantes devido ao dispositivo usado para se alimentar, em uma invenção científica. Agora, ela quer converter o método alternativo em opção acessível para quem convive com o problema. Esse é o plano da bióloga, técnica de Enfermagem e pesquisadora Nilza Carla Leal, que criou um absorvente dérmico para pacientes gastrostomizados — pessoas que precisam recorrer à colocação de um tubo de alimentação na parede abdominal. O filho dela, o jovem João Pedro Leal, de 20 anos, passou pelo processo ainda bebê. 💡 O médico Luiz Almeida, gastroenterologista do Hospital Mater dei Emec, explica que a gastrostomia cria um canal que liga a parede abdominal ao interior do estômago, por onde é inserida uma sonda para que os pacientes sejam alimentados e recebam medicamentos. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia A ação é uma alternativa para a sonda nasal, que normalmente é indicada a pacientes que precisam se alimentar dessa forma por um período curto de tempo. "Eles visam, principalmente, evitar o vazamento do alimento pela pele e infecção no local onde foi inserido o tubo alimentar. Esses cuidados vão desde a higienização das mãos até o correto manejo da sonda", esclareceu o médico. Baiana criou dispositivo para proteger pacientes colostomizados Arquivo Pessoal O problema é que o local onde é feita a incisão da gastrostomia precisa de atenção constante, pois ferimentos podem se formar com o vazamento de líquidos e/ou atrito da sonda com a pele. Segundo o Ministério da Saúde, 3.783 atendimentos de gastrostomia foram realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país, somente no ano passado. Destes, 155 aconteceram na Bahia. Atualmente, segundo Nilza, são usadas gazes e adesivos para evitar que os pacientes tenham ferimentos, porém esses métodos nem sempre conseguem atingir o objetivo e podem provocar outras lesões. Estudo e ciência a serviço do amor de uma mãe por um filho Surgiu daí a inovação proposta pela pesquisadora. Moradora do bairro de Valéria — periferia de Salvador —, ela criou o absorvente dérmico para proteger a pele em caso de vazamentos, além de garantir higiene e qualidade de vida para pacientes e cuidadores. "O objetivo é cobrir a pele, evitar o atrito do aparelho e, antes do suco gástrico tocar na pele, ele absorve, e muda de cor à proporção que ele vai absorvendo. Assim, a pessoa vê o momento de troca", destacou a baiana, em entrevista ao g1. O processo de elaboração do dispositivo começou em 2016. Na época, Nilza passou a estudar formas de evitar as constantes internações do filho, em decorrência das complicações. O equipamento foi batizado de JO+, em homenagem ao jovem e em referência aos outros pacientes que podem ser ajudados. Além de João Pedro, mais três pessoas já usaram o dispositivo. "Hoje eu sou pesquisadora acadêmica e isso tudo em prol do meu filho, do desejo de que ele não fosse mais uma estatística, para que outras mães não viessem a enterrar seu filho por causa de um problema que pode ser resolvido". Mudança de vida Absorvente dérmico foi criado na Bahia para evitar ferimentos em pacientes gastrostomizados Arquivo Pessoal Foi dessa forma que Nilza Carla migrou de uma outra formação, interrompida após o nascimento de João Pedro, para a área da saúde, e, desde então, tem se qualificado cada vez mais. Ao longo dos 10 anos de concepção do dispositivo, foram feitos protótipos e testes em campo, além da oficialização da patente. Durante os estudos, a pesquisadora chegou à escolha de uma substância flexível, chamada poliuretano, para matéria-prima. O material veio da China, por intermédio de um amigo brasileiro que vive no país. Porém, apesar ter importação, o custo de produção do JO+ por unidade é de R$ 4,90. Nilza Carla pontua que gastrostomizados podem chegar a precisar de seis absorventes por dia, dependendo das necessidades do paciente. Uma realidade diferente da vivida por quem ainda não tem acesso a esse recurso. "A medicina diz que esse produto que se coloca indevidamente pode ficar sete dias. O que acontece é que o suco gástrico acumula e, quando você tira e puxa, vem pele, tem dor", destaca a baiana. Atualmente, a pesquisadora busca por financiamento para iniciar a produção em escala e a comercialização. Os projetos para o futuro incluem a construção de uma fábrica para que possa fazer sua própria matéria-prima, o que iria tornar o dispositivo mais barato. "Hoje, o que dificulta o JO+ estar no mercado é que os editais que nós participamos têm um critério de faturamento anual de R$ 100 mil. E a gente ainda não fatura porque a gente ainda não vende. Isso desclassifica a gente, isso faz com que a gente fique batalhando com amigos, porque a gente tem que pagar patente todo ano, tem que pagar CNPJ, e eu não tenho esse recurso". Barreiras à patente e comercialização Prédio da Anvisa Marcelo Camargo/Agência Brasil Em contato com o g1, o advogado René Viana, especialista em Direito Médico e Direito da Saúde, detalhou os processos que dispositivos como o de Nilza precisam passar até a sua comercialização. O advogado aponta que, dentro dos parâmetros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o JO+ é classificado como um produto para saúde. Ele não é um medicamento e nem um equipamento eletromédico. Dessa forma, o caminho de regularização é sanitário. As etapas que englobam esse processo são ⬇️ Enquadramento e classe de risco - Todo dispositivo médico é classificado por risco, de 1 a 4. Produtos não invasivos, de contato com a pele, como esse, costumam ficar nas classes de menor risco, como 1 ou 2. A classe define todo o resto do processo. Empresa regularizada - Antes do produto, a fabricante precisa estar regularizada, com autorização de funcionamento na Anvisa e licença da vigilância sanitária local. Não precisa ser uma fábrica própria, podendo terceirizar a produção com uma empresa já habilitada. Comprovação técnica e boas práticas - É preciso demonstrar que o produto é seguro e cumpre os requisitos essenciais de segurança e desempenho. Regularização na Anvisa - É o passo que autoriza a venda. Nas classes 1 e 2, é por notificação, e nas classes 3 e 4, por registro. O produto só pode ser fabricado, exposto e vendido depois que esse número é publicado no Diário Oficial. Antes disso, legalmente não pode ir às prateleiras. Comercialização - Por fim, com o número da Anvisa publicado, o produto pode ser colocado à venda. Já para chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS), que é um dos objetivos de Nilza, existem outros processos a serem executados. Para isso, é necessário passar pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que avalia eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto no orçamento. "Há relatório técnico, consulta pública e, ao final, a decisão é do Ministério da Saúde. Qualquer pessoa pode pedir essa análise — inclusive a própria inventora ou uma entidade de pacientes", destaca René Viana. O advogado pontua também que os atos de registro e para ter um dispositivo registrado costumam confundir as pessoas. "Patente ou marca no INPI [Instituto Nacional da Propriedade Industrial] protege a invenção e o nome, mas não autoriza a venda. Quem libera a comercialização é a regularização na Anvisa. São dois trilhos separados — dá pra ter patente e ainda não poder vender". O especialista acrescenta ainda que o tempo de espera para obter o registro da Anvisa costuma ser pequeno. "Normalmente, em 30 dias, às vezes menos, e libera a venda em todo o país". Já os demais processos, como regularizar a empresa, fazer os testes, montar o dossiê técnico e cumprir as boas práticas de fabricação, costumam demorar mais. Essa preparação leva de meses a alguns anos, e depende dos recursos de quem desenvolve. "Ou seja, o gargalo nem sempre é a burocracia da Anvisa, que até costuma ser ágil nesses casos. O desafio é chegar pronto até ela. Por isso, um produto 'quase lá' às vezes fica tanto tempo parado", exemplifica. LEIA MAIS: Hospital realiza procedimento inédito pelo SUS em tratamento de pacientes com câncer na Bahia Baiano com paralisia cerebral lança biografia após médicos afirmarem que ele não conseguiria ler Mãe de adolescente com paralisia cerebral busca ajuda para jovem poder andar sozinha: 'Sonho' Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/18/mae-cria-solucao-para-aliviar-dores-de-pacientes-gastrostomizados.ghtml


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