Morro do Cristo: entenda qual é a formação e por que parte dele desmoronou em Juiz de Fora

  • 01/03/2026
(Foto: Reprodução)
Pesquisadores avaliam condições do Morro do Cristo, em Juiz de Fora Um dos cartões-postais mais visitados de Juiz de Fora, que proporciona uma vista panorâmica da cidade, o Morro do Cristo foi tomado por um rastro de terra. O deslizamento, registrado no início da semana após chuvas intensas, transformou a paisagem turística em um cenário de destruição e acendeu um alerta. Após chuvas fora da normalidade, a principal cidade da Zona da Mata mineira sofreu uma série de deslizamentos e enchentes que matou 64 pessoas e deixou uma desaparecida até a noite deste sábado (28). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Zona da Mata no WhatsApp O episódio levantou dúvidas sobre a segurança de viver aos pés de uma formação que muitos acreditavam ser firme o suficiente para resistir a intempéries climáticas, por ter uma base rochosa. O especialista reforça que a população muitas vezes ignora os perigos da face rochosa por acreditar que 'pedra não cai'. “Essa falsa sensação de segurança de que, por ser rochoso, não tem risco de movimento de massa, na verdade, é uma falácia". "Esses paredões rochosos, obviamente, não são suscetíveis a escorregamentos, mas eles têm padrões de fraturas que fazem com que haja, entre aspas, o desplacamento de blocos rochosos ao longo do tempo. Essas fraturas permitem a entrada de água e o processo, que a gente chama de intemperismo da água, nessas fraturas, vai aumentando o tamanho dessas fraturas”, alertou o professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Miguel Felippe. Para entender a composição do morro, os motivos do colapso e o cenário de risco, além de entrevistas Miguel Felippe, o g1 consultou o relatório técnico do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), publicado em 2024. Confira abaixo: O que é o Morro do Cristo? Qual é a formação? O que ocorreu e por quê? O que ainda pode acontecer? Quais as recomendações? Deslizamento de terra no Morro do Cristo em Juiz de Fora Pablo Porciuncula/AFP 1. O que é o Morro do Cristo? Originalmente chamado de Morro do Imperador, o local teve o nome popular, Morro do Cristo, oficializado após a criação de um monumento natural. É uma referência histórica e um dos principais pontos turísticos e de lazer da cidade. O topo plano abriga um mirante, lanchonete, área de lazer e uma estátua do Cristo Redentor, inaugurada em 1906, além de condomínios residenciais, um clube e diversas infraestruturas de telecomunicações, como antenas de rádio, televisão e telefonia móvel. Com cerca de 930 metros de altitude, está situado na região central da cidade, com faces voltadas para bairros como: Jardim Glória; Jardim Santa Helena; Jardim Paineiras; Vale do Ipê; Dom Bosco; São Mateus; Centro. Atualmente, a área é protegida por lei e classificada como unidade de conservação, com o objetivo de preservar o valor como geopatrimônio. 2. A formação: um gigante fraturado Segundo o professor Miguel Felippe, o Morro do Cristo é uma elevação geomorfológica embasada predominantemente por uma rocha chamada granulita. Diferentemente do que se imagina, o morro não é um bloco de pedra maciço e indestrutível. No topo, há uma camada delgada de solo (material terroso) sobre a rocha. Com o excesso de água provocado pelas chuvas da última segunda-feira (23), o solo encharcou, perdeu aderência e deslizou. "São rochas que têm um padrão de fraturamento muito intenso, muito denso e muito diverso, o que faz com que haja uma suscetibilidade natural a movimentos de massa do tipo queda e rolamento de blocos”, explicou. Além disso, o especialista destaca outras características: Descontinuidades: A rocha tem fendas que permitem a entrada da água. Intemperismo: Com o tempo, a água que penetra nessas rachaduras vai 'comendo' a rocha por dentro, aumenta as fendas e causa o desplacamento de blocos. Rampa de detritos: A base do morro é formada pelo acúmulo de rochas que caíram do topo ao longo de milhares de anos. Isso prova que o processo de queda de blocos é natural e recorrente na região. 3. O que ocorreu e por quê? Deslizamento de terra no Morro do Cristo após o temporal em Juiz de Fora Redes Sociais Documento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) datado de 2017 mostra o risco elevado de deslizamentos de rocha na região do Morro do Cristo, próximo ao centro de Juiz de Fora. "Observam-se ocupações muito próximas à jusante do maciço, em alta vulnerabilidade", diz o documento, apontando 15 imóveis ameaçados. O desastre da última semana de fevereiro não foi causado por um evento isolado, mas por um conjunto de movimentos de massa simultâneos. Com base na análise de imagens, Miguel Fellipe informou que o que parece ter ocorrido é um escorregamento raso no topo do morro, que desencadeou o deslocamento de um grande volume de material terroso e rochoso encosta abaixo. Como o morro apresenta um desnível de quase 250 metros e inclinação muito acentuada, a massa de solo e detritos desceu em altíssima velocidade. No caminho, o material ganhou força, carregando tudo o que encontrava pela frente, incluindo vegetação e rochas. “No pé do morro tem as construções urbanas e isso aconteceu justamente na face do Morro do Cristo que está voltada para o centro da cidade e aí a gente teve todos os transtornos associados à infraestrutura logística da cidade, com diversas ruas interrompidas e casas que acabaram caindo". 4. O que ainda pode acontecer? O risco no Morro do Cristo é classificado como alto, sendo mapeado tecnicamente pela UFJF, pela Prefeitura e pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM). A estrutura geológica da região torna o cenário permanentemente suscetível a novos movimentos. Segundo o professor Miguel Felippe e o relatório do serviço geológico, o risco se divide conforme a composição do terreno: Queda de blocos: O relatório técnico adverte que o processo de queda ou tombamento de blocos pode ocorrer sem aviso prévio, tanto em períodos chuvosos quanto secos. Instabilidade em áreas interditadas: Locais como a Gruta de Nossa Senhora de Fátima são considerados inviáveis para eventos públicos devido à altura do paredão e à ausência de recuo de segurança. Risco de novos deslizamentos: Com o solo ainda saturado, a Defesa Civil mantém o alerta para áreas de encosta onde a vegetação foi removida ou onde existem blocos “em balanço”. Vista de Juiz de Fora a partir do Morro do Cristo Prefeitura/Divulgação Recomendações atuais Especialistas recomendam restringir o acesso ao morro em dias de chuva intensa e prolongada, além de monitorar constantemente as fraturas no topo dos paredões. A orientação para os moradores das áreas de encosta é manter o estado de alerta e seguir as instruções da Defesa Civil. Em caso de chuvas intensas ou surgimento de qualquer sinal de instabilidade no terreno, a orientação das autoridades é priorizar a segurança e acionar os órgãos competentes imediatamente. Telefones de Emergência: Defesa Civil: 199 (Atendimento 24h para vistorias e ocorrências de risco). Corpo de Bombeiros: 193 (Emergências que envolvam risco iminente de vida ou desabamento). Polícia Militar: 190 (Para suporte em evacuações de áreas de risco). Morro do Cristo, no centro de Juiz de Fora, é alvo de alertas do Cemaden desde 2017 ANDRE COELHO/EPA/Shutterstock VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das Vertentes

FONTE: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2026/03/01/morro-do-cristo-entenda-qual-e-a-formacao-e-por-que-parte-dele-desmoronou-em-juiz-de-fora.ghtml


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