Munique elege 1º prefeito gay em meio a aumento da homofobia na Alemanha
25/03/2026
(Foto: Reprodução) Dominik Krause, do Partido Verde, é o primeiro prefeito assumidamente gay a ser eleito em Munique
AP - Sven Hoppe
A eleição municipal em Munique, na Alemanha, foi marcada por feitos inéditos. A terceira maior cidade do país e capital do estado mais rico elegeu seu primeiro prefeito do Partido Verde.
Dominik Krause, de 35 anos, encerrou uma hegemonia de 42 anos do Partido Social Democrata (SPD). Ele também se tornou o primeiro prefeito assumidamente gay da capital da Baviera em um momento de aumento de casos de homofobia em toda a Alemanha.
A eleição de Dominik Krause chama a atenção pelo fato de que sua sexualidade e vida privada em nenhum momento se tornaram um assunto durante a campanha. Krause nasceu em 1990 e pertence a uma geração que cresceu em um país muito mais favorável à diversidade sexual. Ele é formado em física pela Universidade Técnica de Munique e se assumiu gay aos 11 anos. Ele está noivo do médico Sebastian Müller, que conheceu ainda na adolescência, em uma aula de dança. No domingo à noite, quando a vitória de Krause já era certa, eles se beijaram no palco da festa de comemoração da vitória, protagonizando uma foto que estampou os portais de notícias em toda a Alemanha.
Mas toda essa vida pessoal ficou de fora da campanha, mesmo sendo informações públicas e amplamente conhecidas. Krause era vereador na cidade desde 2014 e, em 2023, se tornou vice-prefeito na coalizão que governa a cidade. Ele parece ter se beneficiado de uma espécie de fadiga de materiais das gestões do Partido Social Democrata (SPD), que comandava a cidade há décadas, particularmente do prefeito Dieter Reiter, que estava no poder já há 12 anos.
Na campanha, o prefeito eleito deu ênfase às ideias de ampliar áreas verdes e ciclovias na cidade, além de investir em moradia popular. Vale lembrar que Munique, ao contrário da maior parte da Baviera, é uma cidade com uma inclinação liberal de centro esquerda.
Dominik Krause, (à dir.) e seu noivo Sebastian Müller durante a festa eleitoral do Partido Verde após a vitória nas urnas, no domingo, 22 de março de 2026
AP - Sven Hoppe
Prefeitos gays de Berlim e Hamburgo
Eleger um candidato gay já deixou de ser um tabu na Alemanha há muito tempo, mas nem sempre foi assim. O colunista do jornal Welt Rainer Haubrich propõe uma comparação com os primeiros prefeitos gays nas outras duas maiores cidades do país: Berlim e Hamburgo. As duas cidades elegeram homossexuais para seu cargo máximo ainda no começo do século, em um contexto bastante diferente, embora faça apenas 25 anos.
Em Berlim, em 2001, Klaus Wowereit foi praticamente obrigado a sair do armário nos dias antes da eleição, quando soube que um jornal estaria prestes a publicar a informação. Foi quando, em um discurso, ele proferiu a frase que ficou conhecida: "Ich bin schwul, und das ist auch gut so." (“Eu sou gay, e isso é uma coisa boa”).
Em Hamburgo, o prefeito Ole von Beust já estava em seu segundo ano de mandato, lá em 2003, quando foi chantageado pelo próprio vice-prefeito, ameaçando expor publicamente sua homossexualidade. O caso veio à tona e von Beust acabou obtendo apoio da população, que reelegeu seu partido para seguir na prefeitura. Como podemos ver, a homossexualidade de Dominik Krause, eleito neste domingo prefeito de Munique, teve contornos bem menos dramáticos e preconceituosos.
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Casos de homofobia em alta
A Alemanha vive um paradoxo. Se tornou ao longo das últimas décadas um dos países mais tolerantes do mundo na questão da sexualidade, a ponto de isto não ser mais uma questão relevante nas eleições, mas 2025 registrou 2.048 crimes homofóbicos na Alemanha, o maior número da série histórica e que só aumenta desde 2017, com crescimento acentuado em 2023 e 2024. Desde o ano de 2010, o número de crimes homofóbicos aumentou 10 vezes em toda a Alemanha.
O aumento de crimes homofóbicos acompanha o crescimento de popularidade de movimentos e partidos de extrema-direita no mundo e também na Alemanha. O discurso violento contra gays é comum nestes grupos.
O secretário-geral do Partido Social Democrata alemão, Kevin Kühnert, disse em uma entrevista ao canal de TV Welt que evita andar de mãos dadas com seu parceiro em Berlim, justamente por causa deste aumento da violência. A própria chefe da polícia da capital alemã, em uma polêmica entrevista de 2024, aconselhou casais gay a terem cuidado em alguns bairros específicos da cidade.
Em 2025, duas paradas do orgulho gay tiveram que ser canceladas por motivos de segurança, tanto em Regensburg quanto em Gelsenkirchen, onde havia ameaças de um islamita radical. E tem também movimentos políticos do governo conservador que está no poder. O plano de ação "Vida Queer" que visava melhorar a vida das pessoas LGBTQIA+ foi encerrado pelo atual chanceler Friedrich Merz. Este era o único projeto de financiamento nacional voltado para questões LGBTQIA+.
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