'Ninguém deveria morrer servindo à causa da paz': o militar brasileiro em missão da ONU na zona de conflito entre Hezbollah e Israel
Mesmo nos momentos de maior tensão, os dois brasileiros no quartel-general da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil, na sigla em inglês) em Naqoura, no sul do país, esforçam-se por manter um ritual: almoçar juntos.
"É um momento simples, mas que acaba tendo valor justamente porque permite manter contato e proximidade em uma rotina de trabalho bastante intensa", explica um deles, o capitão-tenente da Marinha Hamilton de Andrade dos Santos, por e-mail à BBC News Brasil.
Os capacetes-azuis (denominação informal dada aos militares que integram missões de paz da ONU) estão estacionados no sul do Líbano, invadido por Israel desde 2 de março em resposta a mísseis disparados pela milícia xiita libanesa Hezbollah, alinhada ao regime de Teerã.
A invasão começou cerca de 48 horas depois do início da Guerra do Irã, quando os Estados Unidos e Israel bombardearam alvos no Irã, matando o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e parte significativa da cúpula do regime islâmico.
Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, mais de 1,4 mil pessoas morreram desde o início dos confrontos.
Somente na quarta-feira (8/04), o ministério computou 112 mortos e 837 feridos em todo o território libanês depois de Israel desencadear a maior onda de ataques aéreos ao país desde o início da invasão, atingindo mais de cem alvos, horas depois de o governo israelense declarar que o cessar-fogo celebrado na véspera entre Estados Unidos e Irã excluía o Líbano.
A Unifil está estacionada no sul do Líbano, invadido por Israel desde 2 de março, s primeiros dias da Guerra do Irã.
Aos 34 anos, Santos é um dos 10 militares das Forças Armadas brasileiras na missão.
Nos dias 29 e 30 de março, a Unifil sofreu um duro golpe: em menos de 24 horas, três integrantes indonésios da missão foram mortos em incidentes separados nas imediações da Linha Azul, no sul do Líbano.
A área marca, desde 2024, o limite de cessar-fogo entre a milícia xiita libanesa Hezbollah e forças israelenses.
O primeiro militar morreu em razão da explosão de um projétil em uma posição da Unifil perto da vila de Adchit al-Qusair na noite de domingo (29), enquanto os outros dois foram vitimados na segunda-feira (30) "quando uma explosão de origem desconhecida atingiu seu veículo" perto da vila de Bani Hayyan.
"Este é o segundo incidente fatal nas últimas 24 horas. Reiteramos que ninguém deveria morrer servindo à causa da paz", afirmou a missão em comunicado após o segundo ataque.
"Em 29 de março, o projétil era uma munição disparada pelas Forças de Defesa de Israel. Em 30 de março, a explosão foi causada por um dispositivo explosivo improvisado, provavelmente colocado pelo Hezbollah", afirmou a assessoria de comunicação da Unifil à BBC News Brasil nesta quarta-feira (8).
Mesmo sem conhecer os mortos ("Trabalho no quartel-general e eles serviam nos setores"), Santos afirma que a perda "afeta toda a missão".
"Mesmo quando não há convivência pessoal, existe um sentimento claro de respeito e pesar porque todos nós sabemos o que significa servir aqui, num ambiente complexo e de risco", argumenta.
"Isso impacta o ambiente de trabalho, reforça a seriedade da missão e nos lembra, de forma muito concreta, o valor do dever e do serviço prestado."
Além do almoço com os camaradas, o militar não dispõe de outros recursos para lidar com a amargura da guerra.
"O que existe, no meu caso, é a tentativa de manter disciplina mental, foco na missão e seriedade diante da pressão."
Nas horas mais difíceis, Santos procura se concentrar no que está sob sua responsabilidade e agir com equilíbrio.
"Num ambiente como este, isso faz toda a diferença."
Ele ressalta também a força da equipe ("fundamental").
"O apoio mútuo, a confiança profissional e até a capacidade de preservar alguma leveza, quando o contexto permite, ajudam a enfrentar a tensão sem perder a seriedade. Então eu diria que é isso: formação militar, senso de dever e equilíbrio humano."
Hamilton desembarcou no Líbano em setembro de 2025 sem qualquer experiência prévia do país, que mal conseguiu conhecer em razão dos afazeres profissionais.
"A maior parte do meu tempo é dedicada ao trabalho, numa rotina bastante intensa e praticamente sem finais de semana."
Em uma situação descrita como "extremamente tensa e volátil" pela Unifil, os integrantes da missão convivem desde o início de março com combates ativos nas proximidades de suas posições e em toda a área de operações.
"Como resultado, já não realizamos os mesmos tipos de patrulhas de monitoramento que fazíamos no passado", afirmou à BBC Brasil o Escritório de Comunicação Estratégica e Informação Pública do Quartel-general da Unifil.
"Em vez disso, estamos permanecendo mais próximos de nossas bases para garantir a segurança dos efetivos e assegurar que as áreas próximas às bases não sejam utilizadas por nenhuma das partes para abrigo ou para lançar ataques contra a outra."
"Embora continuemos a relatar ao Conselho de Segurança [das Nações Unidas] o que observamos, não dispomos da mesma visibilidade de antes devido a essa situação. Seguimos com atividades que não exigem presença em campo, incluindo nosso papel crucial de ligação e coordenação entre as partes, que é mais importante do que nunca, à medida que buscamos evitar consequências não-intencionais decorrentes de mal-entendidos e incentivar a desescalada."
'Carga histórica e povo acolhedor'
Santos considera o Líbano muito bonito, "com uma carga histórica muito forte e um povo acolhedor".
"Existe uma ligação especial [do Líbano] com o Brasil, tanto pela presença de libaneses e descendentes de libaneses quanto pela comunidade brasileira aqui."
Assim como todos os militares que servem no quartel-general, Santos completará um ano de Unifil em setembro e retornará à terra natal.
"Ainda não pensei em algo muito específico para o momento da chegada, mas acredito que a primeira necessidade será descansar um pouco e arejar a cabeça depois de um período tão intenso", revela.
O contingente verde-amarelo ostenta graus variados de experiência em missões da Organização das Nações Unidas (ONU): enquanto a maioria, como Santos, não tinha vivência nesse tipo de trabalho, um militar do grupo serviu no Haiti.
Em janeiro do próximo ano, o Brasil comemorará 70 anos do embarque do primeiro Batalhão Suez para a região do Deserto do Sinai, onde essa força de interposição da ONU serviu até ser expulsa pelas forças egípcias nos instantes imediatamente anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Embora não conheça nenhum veterano de Suez, primeira grande experiência do Brasil em uma força de paz da ONU, Santos afirma que os remanescentes do Batalhão costumam encontrar militares brasileiros da missão.
"Eles [os veteranos] fazem questão de ir [ao encontro] com a boina azul e a medalha da ONU."
E complementa: "Acho que isso fala por si só. Uma missão de paz não termina quando um militar volta para casa. Ela permanece como parte da sua trajetória e da sua identidade".
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Como a guerra no Irã já afetou o mundo - e quanto tempo o conflito ainda pode durarFONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/09/ninguem-deveria-morrer-servindo-a-causa-da-paz-o-militar-brasileiro-em-missao-da-onu-na-zona-de-conflito-entre-hezbollah-e-israel.ghtml