Paciente volta a andar e leva polilaminina aos trends; entenda o que a substância pode fazer e o que ainda não se sabe

  • 20/02/2026
(Foto: Reprodução)
O que a polilaminina pode fazer e o que ainda não se sabe sobre a substância A polilaminina virou tema de diferentes trends nas redes sociais nos últimos dias: destaque para paciente em recuperação, debate sobre perda de patente e posts de orgulho pela ciência nacional. Instagram e TikTok ficaram tomados pelo assunto. Mas o que, de fato, essa substância pode fazer? ➡️ A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular. Em sua pesquisa, Tatiana Sampaio usava a substância para tratar lesões medulares agudas, ou seja, que tinham acontecido há pouco tempo e deixaram as pessoas sem os movimentos. Ela conseguiu bons resultados em animais e depois em um pequeno grupo de humanos. Isso levou à parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início da pesquisa que deve responder: A polilaminina funciona mesmo como tratamento para pessoas com lesão medular aguda? Em entrevista ao g1, a pesquisadora explicou que o que ela apresenta ao país hoje é uma substância com a promessa de se tornar uma medicação, mas que ainda há um longo caminho a percorrer. Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que ele estiver registrado, as pessoas usarem e todas elas recuperarem a função, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução. O cuidado de Tatiana existe porque ainda é necessário cumprir todo o processo exigido para que uma substância prove que é segura e eficaz. ➡️ E você pode se perguntar: mas e o caso de Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular em 2018, aplicou polilaminina e hoje faz até musculação? O que especialistas explicam é que há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a droga, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual. Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular aguda em 2018 e aplicou polilaminina Divulgação/@bfdrummond Abaixo, o g1 conta o que se sabe sobre o tratamento, quais são as possibilidades, em que fase está a pesquisa e o que pensam sobre a substância especialistas que lidam com pesquisas clínicas e pacientes com lesão medular. O que a polilaminina pode realmente fazer? Como a substância funciona no corpo? Se não está aprovada, por que você está vendo pessoas usando a polilaminina nas redes? E a patente do produto? Até onde o que já se sabe justifica o uso da substância como está sendo feito? O que a polilaminina pode fazer? A pesquisa mostrou que há indícios de que ela pode ajudar na regeneração em casos de lesão medular aguda, que é aquela que acontece logo após o trauma na região. A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida pelo corpo humano Cristália/Divulgação 🔎 Para você entender melhor: A coluna vertebral é formada por vários ossos que se empilham e formam um canal no centro da estrutura óssea. É por esse canal que passa a medula espinhal — um feixe de nervos que conecta o cérebro ao restante do corpo. Ela funciona como uma via de comunicação: transmite os comandos do cérebro para os músculos e leva de volta informações como dor, temperatura e tato. Quando há uma lesão, essa comunicação fica interrompida. ➡️ É nesse ponto que a substância entra. O objetivo é que, ao ser aplicada no local da lesão, ela estimule os nervos a criarem novas rotas e restabelecerem parte dos movimentos. No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou seja, por especialistas independentes — com oito pacientes. Alguns tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos. O que os dados divulgados mostram até agora: O estudo preliminar envolveu oito pacientes com lesão medular aguda e apontou diferentes níveis de recuperação motora. Nem todos tiveram recuperação completa — o caso que viralizou nas redes sociais não representa o resultado observado em todos os participantes. Os resultados ainda não passaram por revisão por pares, que é o processo em que especialistas independentes analisam a metodologia, os dados e as conclusões. Essa etapa é considerada fundamental para validar achados na ciência. Como o estudo foi feito com um grupo pequeno de pessoas, não é possível afirmar, com base nesses dados, que a substância é realmente eficaz. Amostras reduzidas dificultam conclusões definitivas. Ainda mais porque as lesões são de diferentes níveis. Não há evidência científica de que a polilaminina possa funcionar no tratamento de lesões medulares crônicas, em pacientes que já têm a paralisia há algum tempo. Isso não foi pesquisado nessa etapa. O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança. Não dá para saber se estamos mesmo diante de algo espetacular. O que Tatiana fez pode ser considerado um feito: ela carrega a resiliência de uma pesquisadora que vem dedicando décadas de sua vida incansavelmente a encontrar uma esperança para pacientes que perderam a chance de se movimentar. Mas, como ela mesmo explica, é preciso paciência para o tempo da ciência, que exige inúmeros processos até que uma descoberta se prove mesmo eficaz. E você pode se perguntar: o que então falta para que se prove eficaz? Basicamente, todo o caminho que um medicamento precisa para se provar eficaz. O resultado que se tem até agora é acadêmico. Para que a polilaminina chegue de fato a hospitais e ao Sistema Único de Saúde (SUS), ainda será necessário: Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos – começando pela fase 1, voltada à segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética. Ou seja, ainda não começou. Depois, caso seja provada a segurança, vai ser preciso ampliar os testes nas fases 2 e 3 – em que é avaliada a eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores. Caso as duas fases acima sejam um sucesso, então é solicitado o registro sanitário. Após a aprovação, o medicamento pode ser comercializado. Como a substância funciona no corpo? Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, os “fios” dos neurônios (axônios) se rompem e o próprio organismo forma uma cicatriz no local, criando um ambiente que dificulta a reconexão dessas células. A polilaminina é uma versão reorganizada em laboratório da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano e importante no desenvolvimento do sistema nervoso. Ao ser aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia, ela forma uma espécie de estrutura de suporte no local do trauma. Na prática, essa estrutura funciona como uma “ponte microscópica” ou um caminho guiado que pode facilitar o crescimento dos prolongamentos dos neurônios através da região lesionada, ajudando a restabelecer parte da comunicação entre o cérebro e o corpo. Os resultados observados até agora em laboratório, em animais e em pequenos grupos de pacientes indicam que esse mecanismo pode favorecer algum grau de recuperação motora em lesões agudas. Entenda como funciona a polilaminina. Arte/g1 Por que então você está vendo pessoas usando a polilaminina nas redes? Desde que o estudo foi divulgado, a repercussão vem mobilizando pacientes e familiares de pessoas com lesão medular. Com isso, dezenas de pessoas acionaram a Justiça para ter acesso à substância. ➡️ O Brasil tem uma resolução que permite o uso compassivo de medicamentos ainda em fase de estudo, mas o processo exige avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediam celeridade nessa análise. Segundo o laboratório Cristália, são cerca de 40 ações judiciais e 19 aplicações realizadas até agora. A diferença nos números ocorre porque alguns pacientes não tiveram aval médico por causa da condição clínica. 🔴 Mas, atenção: todas essas aplicações não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa. Eles tiveram evoluções variadas, que vão desde uma recuperação gradual da mobilidade, até movimento de alguns membros. O que especialistas explicam é que, mesmo com esse resultado, é prematuro usar a polilaminina. Isso porque até 30% dos pacientes pode se recuperar de lesões agudas. (Entenda mais abaixo) Desde o início das mobilizações, cinco mortes foram registradas. Segundo o laboratório, elas não têm relação com a polilaminina, mas com o quadro clínico dos pacientes, que já eram graves. Ao g1, Tatiana Sampaio afirma que entende a mobilização dos pacientes, mas que esse tipo de aplicação os deixa expostos. É uma exposição para o paciente. Como não está dentro de um estudo clínico, não temos responsabilidade por um acompanhamento. Apesar disso, o laboratório que conduz a pesquisa afirma que confia na segurança da substância e que, agora, não será mais necessário recorrer à Justiça. O Cristália informou que, após reunião com a Anvisa, a agência concordou em acelerar a avaliação dos pedidos. A substância é entregue gratuitamente, já que ainda não é regulamentada como medicamento. E a patente do medicamento? Em entrevista ao canal "Brasil 247", Tatiana disse que tem a patente nacional da substância, mas que não tem mais a internacional. Isso teria acontecido por um corte de verbas federais na UFRJ, onde a pesquisa estava sendo feita, entre 2015 e 2016. Nesse período, segundo ela, para não perder a patente nacional, ela chegou a pagar o registro do próprio bolso. O g1 questionou a UFRJ sobre o tema, mas não obteve retorno. O Cristália, que hoje trabalha com a substância, disse que, de forma prática, a patente nacional cai este ano e que a internacional, caso estivesse válida, também cairia. Hoje, o laboratório brasileiro patenteou o processo de formulação, então é ele quem tem o registro. Até onde o que já se sabe justifica o uso da substância como está sendo feito? O g1 conversou com especialistas e como o neurocirurgião Jorge Pagura, que há 50 anos opera pacientes com lesão medular e é professor emérito da Universidade Federal do ABC, e com o especialista em estudos clínicos Leonardo Costa. Eles foram unânimes em dizer: os achados científicos não são suficientes para justificar o uso amplo e irrestrito da substância. Leonardo Costa, que também pesquisa a área da coluna, explica que há evidências de que 30% dos pacientes podem recuperar os movimentos depois de uma lesão aguda sem qualquer intervenção. Ele explica que o que define isso é a gravidade da lesão, a agilidade na hora de operar para conter o dano e a recuperação. Depois de uma lesão aguda, o corpo vai se reorganizando. Com o passar do tempo, tendo um bom atendimento e acompanhamento, a pessoa pode recuperar o movimento, parcial ou total em alguns casos. O especialista afirma que está otimista com a pesquisa, mas que é preciso cautela ao usar e acreditar que a polilaminina como remédio é uma realidade. E que a chance de um estudo que funcionou em modelo, como é o caso, funcionar em grupos maiores, é de 20%. “Estamos falando de ciência e, por isso, é preciso muito cuidado”, explica. O médico Jorge Pagura explica que torce para que funcione, mas que baseado nas evidências, acha que a substância pode até ajudar sendo uma proteção após a lesão, do que regenerando, como se quer acreditar. A medula é como um cabo e, diferente do cérebro, ela não tem neuroplasticidade. Ou seja, não consegue se adaptar. Eu sei como é no dia a dia o drama desses pacientes. E me preocupa muito a forma como vem sendo divulgado esse estudo, que ainda é frágil. Ele explica que ao longo dos anos teve pacientes com regeneração de poucos movimentos ou até parcial (de apenas um lado do corpo) e que existe evidência de que até 30% dos pacientes possam se recuperar com reabilitação. No entanto, isso não é uma realidade para todos e que depende do tipo de lesão. E isso também se aplica a polilaminina. Cada lesão é diferente da outra e o que temos em evidência não prova que isso vai se aplicar a todo tipo de lesão, como está parecendo nas redes sociais (...) Eu me preocupo com o emocional do paciente, em se criar uma falsa expectativa para as famílias. Para os dois, só depois de todos os estudos apresentados no estudo clínico que foi autorizado pela Anvisa é que vai ser possível uma avaliação melhor. Por enquanto, é preciso cautela. O laboratório, no entanto, diz que as pesquisas feitas por Tatiana são o bastante para provar eficácia e segurança e que os estudos necessários agora são só uma questão regulatória. O Cristália investiu até agora R$ 100 milhões na pesquisa para que ele seja transformado em medicamento. Nós temos um estudo de segurança e de eficácia feito no espaço acadêmico. O que não temos é um estudo clínico regulatório. O que temos até agora é que dos oito pacientes que receberam, seis evoluíram. Isso é uma taxa de 75%, bem maior do que os 30% que naturalmente evolui. Almeida reforça que mesmo o estudo sendo apenas acadêmico, foi feita uma auditoria para checar os achados da pesquisa e que tudo foi feito corretamente. Por causa da repercussão da polilaminina nas redes sociais, o Cristália fez uma publicação no fim de janeiro em suas redes sociais. No post, eles esclareciam algumas informações que estavam circulando nas redes afirmando que a substância também poderia ser usada em quem tem lesão medular crônica, como é o caso da atleta Laís Souza. Hoje, não há qualquer evidência científica de que isso possa acontecer. Rogério explica que eles estão no início de uma pesquisa que pode trazer algum resultado para esse tipo de paciente, caso seja comprovada a eficácia. Após a lesão se tornar aguda, é gerada uma cicatriz na região que impede a ação da substância. Agora, eles estão analisando formas de retirar essa lesão e, a partir disso, testar a ação.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/02/20/polilaminina-nos-trends-entenda-o-que-a-substancia-pode-fazer-e-o-que-ainda-nao-se-sabe.ghtml


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