População 60+ cresce no RN e muda perfil de consumidores e empreendedores

  • 29/09/2026
(Foto: Reprodução)
Entre os cabelos branquinhos e o horizonte que se abre, Jurema Dantas, de 73 anos, mantém o desejo de compartilhar conhecimentos e viver novas experiências Augusto César Gomes Mais potiguares estão chegando aos 60 anos e levando para essa fase da vida hábitos de consumo, trabalho, lazer e empreendedorismo. Atualmente, as pessoas com 60 anos ou mais representam 15,1% da população do Rio Grande do Norte, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em pouco mais de uma década, a proporção dessa faixa etária cresceu e o índice de envelhecimento do estado passou de 43,6, em 2010, para 76,1, em 2022. A mudança demográfica também aparece no mundo dos negócios: dados da Receita Federal mostram que o número de empresas com sócios de 60 anos ou mais passou de 32.317, em 2020, para 45.483, em 2026 — crescimento de cerca de 41%. 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp 🔎 O índice de envelhecimento relaciona a população com 60 anos ou mais à população de 0 a 14 anos. No cálculo do IBGE, o resultado indica quantas pessoas 60+ existem para cada 100 crianças e adolescentes dessa faixa etária. Os números ilustram um público que vai além da aposentadoria: os 60+ também estão abrindo empresas, permanecendo ativos no mercado, viajando, consumindo serviços e buscando experiências pensadas para essa etapa da vida. Para o economista William Figueiredo, da Fecomércio RN, o crescimento da população 60+ já é um fator que precisa ser considerado pelas empresas. A entidade aponta que, entre 2012 e 2021, o número de pessoas com 60 anos ou mais no Estado passou de 352 mil para 494 mil, um crescimento de 40,3%. No mesmo período, a população total do estado aumentou 7,8%. "Essa diferença mostra a importância de considerar o público 60+ no planejamento dos negócios. Embora esses números não meçam diretamente seu poder de compra, revelam uma mudança demográfica que amplia as oportunidades para o comércio, os serviços e o turismo". Censo do IBGE aponta que índice de envelhecimento cresceu no RN Augusto César Gomes Adaptações a um consumidor diverso O crescimento da população 60+ também representa um desafio para empresas que precisam entender um público com necessidades e hábitos diferentes, explica o economista William Figueiredo. “Na nossa avaliação, as empresas precisam reconhecer a diversidade de interesses e necessidades das pessoas com 60 anos ou mais”, pontua. Segundo ele, esse público deve ser considerado em ofertas de turismo, educação, tecnologia, cultura e lazer, além dos serviços de saúde e bem-estar. “Isso exige um atendimento que respeite sua autonomia, ofereça informações claras e facilite o acesso aos produtos e serviços”, diz. Entre os segmentos com potencial para atender essa população, Figueiredo cita turismo, gastronomia, cultura, lazer, saúde, bem-estar, educação, tecnologia e cuidados pessoais. A adaptação também precisa chegar ao comércio, desde a estrutura física até a forma de comunicação, complementa Figueiredo. “Atender bem à população 60+ exige compreender diferentes condições de renda, preferências e graus de familiaridade com a tecnologia. É esse conhecimento que permite desenvolver ofertas adequadas e construir uma relação de confiança com o consumidor”. Professora aposentada segue atuando na educação População 60+ cresce no RN e muda perfil de consumidores e empreendedores A professora aposentada Jurema Dantas, de 73 anos, é um exemplo dessa mudança. Mesmo depois de se aposentar como professora e funcionária do Estado, ela continua trabalhando em uma editora que produz livros para alunos do ensino fundamental. Além do trabalho remunerado, Jurema participa de atividades voluntárias na igreja, onde ajuda a organizar festas, atende a comunidade e participa de grupos. “Antigamente, há alguns anos, quando uma pessoa completava 70 anos, ficava dentro de casa. Agora não, agora as pessoas viajam, tomam conta dos netos, os levam para passear, e eu ainda trabalho.” Jurema acredita que o conhecimento acumulado ao longo da vida passa a ter valor ainda maior na maturidade. “O tempo nos dá essa condição de a gente acumular conhecimentos, experiências e a gente poder usar isso em nosso benefício e para o benefício das pessoas que convivem com a gente”, diz. Rosângela criou negócio para atender público 60+ A experiência acumulada também virou negócio para Rosângela Farias, de 67 anos. Ela criou em Natal, em 2004, a Dandara Turismo, agência voltada principalmente para o público com 60 anos ou mais e pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. O trabalho é baseado em roteiros de turismo de vivência e experiência, que combinam cultura, história, gastronomia e religiosidade. Uma das últimas atividades da agência foi um passeio de barco pelo Rio Potengi, com roteiro relacionado à história e à religiosidade de Natal. Grupo realiza passeio pelo Rio Potengi, em Natal Augusto César Gomes Rosângela afirma que o fato de também fazer parte do público atendido ajuda a compreender melhor as necessidades do grupo. “É a melhor idade. Então, a gente por pertencer a esse grupo, acaba acolhendo muito bem, tendo essa sensibilidade de perceber o que o outro quer, o que precisa”, diz. A agência também desenvolve ações sociais nos destinos visitados, depois de identificar necessidades de instituições ou comunidades locais. Rosângela diz que uma das dificuldades do negócio é encontrar mão de obra preparada para atender esse público. Por isso, segundo ela, alguns fornecedores e profissionais são escolhidos também pela capacidade de acolhimento e pela sensibilidade para lidar com pessoas mais velhas. “Esse é um dos desafios que a gente acaba encontrando nesse tipo de negócio. Às vezes é difícil encontrar mão de obra qualificada, que possa se entregar, se envolver e falar a 'língua' dessas pessoas, a linguagem da gente, que é 60+”. Gelza Alves e Rosângela Farias transformam encontro em autonomia e vontade de viver novos caminhos Augusto César Gomes Entre os clientes da Dandara está Gelza Alves, de 79 anos, farmacêutica aposentada. Ela conta que a vida ganhou um novo significado através das experiências turísticas. “Para mim foi uma válvula de escape porque, no meu caso, que fiquei viúva, a gente tende a se isolar e ficar sozinha, retraída. E foi através desses passeios, viagens, que eu me reconectei comigo mesma. Nunca é tarde para fazer o que a gente quer fazer, a idade não deve ser um empecilho", conta. Casal transforma fazenda em negócio depois dos 60 Conceição e Leonardo fundaram a Fazenda Matina no período da pandemia Divulgação O empreendedorismo na maturidade ganhou outro formato para Conceição Varella, de 62 anos, e Leonardo Tinôco, de 64. O casal é responsável pela Fazenda Matina, uma propriedade localizada em uma área de expansão urbana entre Macaíba e São Gonçalo do Amarante, na Grande Natal. A fazenda pertencia à família de Leonardo desde a década de 1950. Durante a pandemia, ele, que é engenheiro agrônomo, retomou o cultivo de uma terra que estava pouco utilizada e passou a investir em agricultura regenerativa. Conceição, pedagoga e professora aposentada, entrou no negócio depois de aposentar a carreira na educação. O que começou com pequenos cultivos destinados à própria família cresceu e se transformou em uma empresa de impacto socioambiental. O negócio produz alimentos orgânicos e agroecológicos, entre hortaliças, frutas e outros itens, além da criação de tilápia. Os produtos podem ser comprados na própria fazenda, na Rua Aldo da Fonseca Tinoco, Km 02, ou por meio do e-commerce. A fazenda também desenvolve atividades de educação ambiental e experiências voltadas à sustentabilidade, usando práticas como agricultura regenerativa, produção própria de adubo orgânico e geração de energia solar. Fazenda está localizada na zona rural de Macaíba Divulgação Conceição diz que empreender depois dos 60 envolve desafios, mas também a percepção de que ainda é possível começar algo novo. “É isso que eu quero, é empreender para que outras pessoas também tenham a oportunidade de melhorarem a sua qualidade de vida.” Leonardo destaca o conhecimento acumulado ao longo da vida como um recurso que pode ser compartilhado com outras gerações. A fazenda recebe, por exemplo, escolas públicas para atividades educativas sem cobrança. “Nós somos egressos de escolas públicas. Então, hoje, por exemplo, quando a gente recebe uma escola pública, a gente não cobra nada, a gente presta esse serviço gratuitamente como uma forma de devolver à sociedade aquilo que ela investiu na gente”, completa. Sesc amplia ações para população 60+ A transformação demográfica também tem provocado respostas dentro do Sistema Fecomércio RN. Uma delas é o Trabalho Social com a Pessoa Idosa (TSPI), desenvolvido pelo Sesc RN. Segundo Gedson Nunes, diretor regional do Sesc RN, o programa beneficiou mais de 562 pessoas em 2025 e já havia ultrapassado essa marca até julho de 2026, com mais de 1 mil vagas abertas em menos de dois anos. “Na prática, direciona a pessoa idosa a manter o dinamismo, autonomia e qualidade de vida, promovendo convivência, fortalecimento de vínculos e autonomia, contribuindo para um envelhecimento ativo e para a participação social dos idosos”, afirma. Gedson também destaca que o atendimento ao público 60+ não se restringe ao TSPI. “Esse público é atendido pelas Clínicas Sesc e pelas atividades de esportes e lazer, ampliando as oportunidades de cuidado com a saúde, prática de atividades físicas e convivência, respeitando os limites, o condicionamento e fortalecendo a saúde.” TSPI é um projeto voltado a socialização de pessoas 60+ Sesc RN/Reprodução

FONTE: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2026/09/29/populacao-60-cresce-no-rn-e-muda-perfil-de-consumidores-e-empreendedores.ghtml


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