Por que a Groenlândia virou peça-chave na geopolítica global e nos planos de Trump

  • 25/01/2026
‘Eu quero a Groenlândia’: por que Donald Trump quer ampliar presença americana no Ártico A Groenlândia, uma ilha marcada por colonização, riquezas minerais e fragilidade econômica, voltou ao centro da disputa geopolítica global após declarações de Donald Trump, que voltou a defender a ideia de comprar o território estratégico no Ártico. Imagina a compra de um terreno tão distante que parecia impossível alguém se incomodar com ele. Durante séculos, foi assim a vida dos inuítes, povo que vivia aos pés da maior e mais gelada ilha do mundo. Eles produziam roupas com pele de urso polar e se alimentavam de peixe fresco, recém-pescado. Antigamente, eram chamados de esquimós — termo hoje considerado pejorativo, associado à ideia de povos primitivos e comedores de carne crua. A história começou a mudar com a chegada dos primeiros vikings, vindos da Islândia. Foram eles que batizaram a ilha de Groenlândia, que significa “terra verde”. Era uma estratégia de marketing: tudo ali é branco, mas a ideia era convencer mais pessoas de que aquela seria uma terra prometida. Há exatamente um ano, o "Fantástico" enfrentou um inverno rigoroso na capital Nuuk. A cidade foi construída por colonizadores. Há cerca de 300 anos, um explorador vindo da Dinamarca chegou ao local. No ponto mais alto de Nuuk, uma grande estátua foi erguida em homenagem a ele. A intenção era transformar todos os habitantes da ilha em cristãos. A primeira igreja foi construída e, em seguida, a Groenlândia foi transformada em colônia, sem que a população local fosse consultada. Os dinamarqueses criaram escolas para ensinar apenas o idioma dinamarquês e, pouco a pouco, foram apagando a tradição inuíte. Também concentravam os lucros da caça à baleia e do comércio de pele de focas, produtos de alto valor no mercado internacional. Era uma colônia de exploração: pouco investimento e muito ganho. Hoje, a Groenlândia faz planos para se tornar independente. Mas conquistar autonomia é difícil sem recursos financeiros para se sustentar. Grande parte do dinheiro que circula no território vem de ajuda externa, que também garante educação e sistema de saúde gratuitos, em um país que enfrenta altos índices de alcoolismo e suicídio. Pelas lentes de Donald Trump, trata-se de uma terra esquecida, marcada por feridas da colonização, mas que esconde uma mina subexplorada. Sob a espessa camada de gelo da Groenlândia, existem minerais que serão cada vez mais necessários para a fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e armas. O planeta aquece ali a uma velocidade três vezes maior do que no resto do mundo. Isso tende a mudar o tabuleiro geopolítico global, já que portos da região se tornarão mais estratégicos e o mar do Ártico poderá abrir rotas de navegação inéditas. Hoje, a China transporta seus produtos por uma rota marítima longa, cara e que passa por mares controlados por adversários. A chamada nova Rota da Seda seria mais curta, passando ao lado da Rússia, grande aliada chinesa. Mesmo distante cerca de dois mil quilômetros do Ártico, a China constrói mais navios quebra-gelo do que Rússia e Europa juntas. Também é o maior produtor mundial de carros elétricos e turbinas eólicas — o que explica o interesse nos minerais escondidos sob o gelo. A principal força de defesa dos interesses ocidentais na região é a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar mais poderosa do mundo, formada por 30 países europeus e liderada pelos Estados Unidos. Um documentário de 2024 mostra o arsenal da Otan no Ártico. Em Keflavik, na Islândia, onde a temperatura varia entre zero e cinco graus, um bunker da Guerra Fria que passou anos abandonado hoje abriga caças F-35, aeronaves de interceptação. A Islândia é tão pequena que não possui Força Aérea própria. Os F-35 são operados por oficiais de vários países, sob comando norueguês. "A gente faz policiamento, ou seja, a gente responde a qualquer infração aérea no espaço da Islândia. A gente pode dar uma resposta inicial a algo vindo da Rússia, por exemplo", diz Trond Hagen, comandante da Força Aérea Norueguesa. Cerca de cem oficiais operam a base — um número pequeno diante do poderio militar russo. Ainda assim, a posição é considerada estratégica. "Esse é uma aeronave que opera à distância. A gente não precisa chegar perto para atacar. E o inimigo não sabe quando estamos nos aproximando", afirma Hagen. Outra carta na manga da Otan é o E-3, um Boeing 707 dos anos 1960, equipado com tecnologia de ponta e usado para monitoramento. A tripulação reúne oficiais da Alemanha, Estados Unidos, Itália, Holanda e Grécia, que acompanham atividades militares em um raio de 300 mil quilômetros quadrados. A missão é de paz, mas, em caso de guerra, o E-3 pode se transformar em uma base de comando suspensa no ar. A vigilância ocorre também debaixo d’água. O mar Ártico descongelado é estratégico para submarinos militares. Durante a Guerra Fria, russos e americanos escondiam armas nucleares na região. Hoje, o risco envolve plataformas de extração de gás e petróleo e rotas de telecomunicação por fibra óptica. A Otan tenta monitorar submarinos russos enquanto eles deixam as bases no Ártico. Depois disso, a tarefa se torna quase impossível. Finlândia e Suécia têm muito a perder em um eventual conflito na região. Por isso, pediram recentemente para ingressar na Otan. Logo depois, militares americanos passaram a treinar tropas finlandesas perto da fronteira com a Rússia. Trump já declarou diversas vezes que os Estados Unidos deveriam deixar a Otan e que os europeus deveriam bancar sozinhos seus gastos com defesa. Na quarta-feira, ele voltou a falar sobre a Groenlândia durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. O tom foi de ameaça, embora tenha afirmado que não pretende usar força militar. Mesmo assim, na Groenlândia, o primeiro-ministro pediu que a população monte kits de emergência, com água potável, alimentos não perecíveis e até armas de caça com munição. A ideia de Trump não seria invadir, mas comprar a Groenlândia. Os Estados Unidos fizeram algo semelhante com o Alasca, adquirido em 1868 por US$ 7 milhões — um dos melhores negócios imobiliários da história. Hoje, no entanto, propostas desse tipo estão fora de moda. As leis internacionais garantem a soberania dos povos sobre seus territórios. Trump chegou a sugerir a realização de um referendo para perguntar aos 56 mil habitantes da Groenlândia se eles têm um preço. Em 2019, ofereceu US$ 100 milhões, com a promessa de investimentos e distribuição de riqueza. Para os moradores que valorizam a cultura e a história da ilha gelada, há um consenso: esse é um terreno que não está à venda. 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FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/01/25/por-que-a-groenlandia-virou-peca-chave-na-geopolitica-global-e-nos-planos-de-trump.ghtml


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