Por que há mais gelo em algumas regiões da Lua? Estudo sugere origem da água ao longo de bilhões de anos
08/04/2026
(Foto: Reprodução) Por que a Artemis II só sobrevoou a Lua se os EUA já pousaram lá?
Um dos maiores mistérios sobre a Lua —a origem da água congelada em sua superfície— acaba de ganhar uma nova peça. Um estudo internacional publicado nesta terça-feira (7) na revista Nature Astronomy sugere que o gelo lunar não surgiu de um único evento, como o impacto de um grande cometa, mas foi se acumulando lentamente ao longo de bilhões de anos.
A pesquisa indica que as crateras mais antigas da Lua, especialmente próximas ao polo sul, são justamente as que concentram mais gelo —o que aponta para um processo contínuo de deposição de água ao longo do tempo.
Segundo os autores, isso ajuda a explicar por que o gelo não está distribuído de forma uniforme pela superfície lunar —uma dúvida que intriga cientistas há décadas.
Onde está a água na Lua
Desde missões da NASA e de outras agências espaciais, há evidências de que a Lua abriga água em forma de gelo, concentrada em crateras profundas que nunca recebem luz solar, conhecidas como “armadilhas frias” (cold traps).
Essas regiões permanecem em sombra permanente por bilhões de anos, mantendo temperaturas extremamente baixas, ideais para preservar o gelo.
Mas uma questão permanecia sem resposta: por que algumas crateras têm mais gelo do que outras?
Um acúmulo lento ao longo do tempo
Para investigar o problema, os cientistas cruzaram dados de temperatura da superfície lunar —obtidos por instrumentos da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, lançada em 2009— com simulações computacionais da evolução das crateras ao longo da história da Lua.
O resultado revelou um padrão claro: quanto mais antiga e mais tempo em sombra uma cratera permaneceu, maior a chance de ela concentrar gelo.
“Parece que as crateras mais antigas da Lua também são as que têm mais gelo. Isso sugere que a água foi se acumulando continuamente por até 3 ou 3,5 bilhões de anos”, afirmou Paul Hayne, cientista planetário da Universidade do Colorado.
Essa conclusão enfraquece a hipótese de que a água teria chegado de uma só vez, por exemplo, após o impacto de um grande cometa.
Imagem feita pela missão Artemis II mostra o lado oculto da Lua (à esquerda) e o lado visível (à direita), com destaque para a bacia de Orientale.
NASA
De onde veio essa água?
Embora o estudo não identifique uma única origem, ele aponta que a água lunar pode ter múltiplas fontes ao longo do tempo:
atividade vulcânica antiga, que teria liberado água do interior da Lua
impactos de cometas e asteroides ricos em gelo
interação com o vento solar —fluxo constante de partículas vindas do Sol
Nesse último caso, átomos de hidrogênio vindos do vento solar podem reagir com oxigênio presente na superfície lunar, formando moléculas de água.
Como isso ajuda em futuras missões
Entender onde está o gelo lunar e como ele se formou não é apenas uma questão científica. Tem implicações diretas para a exploração espacial.
A água congelada pode ser um recurso estratégico para futuras missões tripuladas:
pode ser derretida para consumo humano,
pode gerar oxigênio para respiração,
pode ser convertida em combustível de foguete (hidrogênio e oxigênio).
Os resultados do estudo também ajudam a indicar alvos prioritários para exploração. A cratera Haworth, por exemplo, no polo sul da Lua, pode estar em sombra há mais de 3 bilhões de anos —o que a torna uma das candidatas mais promissoras para armazenar grandes quantidades de gelo.
Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que a resposta definitiva sobre a origem da água na Lua ainda depende de análises diretas.
“Essa questão só será resolvida com o estudo de amostras”, afirmou o autor principal, Oded Aharonson, do Instituto Weizmann, em Israel.
Novos instrumentos já estão em desenvolvimento para mapear melhor essas regiões. Um deles, previsto para ser enviado ao polo sul lunar a partir de 2027, deve ajudar a identificar com mais precisão onde o gelo está concentrado e em que quantidade.
A confirmação definitiva, no entanto, pode vir apenas quando cientistas conseguirem coletar —ou trazer de volta à Terra— amostras dessas crateras que permanecem, até hoje, na escuridão.
Histórico: os 4 tripulantes da Artemis II atingem o ponto mais distante da Terra que qualq