Projeto de Itapetininga incentiva comunidades vulneráveis a escrever livros pelo mundo: 'Histórias que nunca vou esquecer', diz idealizador
01/04/2026
(Foto: Reprodução) Projeto criado em Itapetininga leva escrita criativa para povos vulneráveis
Na comunicação entre povos, a diferença de idioma pode se tornar um obstáculo, especialmente quando não há conhecimento mínimo da língua predominante. Mesmo com a dificuldade de transmitir mensagens, o ser humano, independentemente do lugar onde está, recorre a duas habilidades essenciais para se fazer entender: a criatividade e a imaginação
Esses atributos sempre estiveram presentes na trajetória de Ismael Tavernaro Filho. Nascido e criado em Itapetininga (SP), ele foi vizinho de Edson de Abreu Souza, conhecido na cidade como “Poeta do Monte Santo”.
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"Eu trabalhava como servente de pedreiro de dia e em uma pizzaria à noite. Cresci ouvindo contos, histórias e poesias do Poeta do Monte Santo. No meu pouco tempo de descanso, eu cuidava do meu sobrinho, então, quando descansava o corpo, nós íamos criando histórias como uma forma de brincadeira. Inventávamos personagens e eu vi que isso funcionava", lembra.
A imaginação levou Ismael a idealizar e estruturar o projeto “Dando Asas à Imaginação”, desenvolvido pela editora que ele próprio fundou. Realizada desde 2020, a iniciativa não se limita a um evento pontual e tem caráter totalmente filantrópico, com ações voltadas a comunidades em situação de vulnerabilidade em diferentes partes do mundo.
"Nós acreditamos que é a partir da literatura e da educação que conseguimos modificar algo. As crianças são 'terrenos férteis' e nosso projeto é transformar as crianças em autores das próprias obras. Parte do valor dos livros vendidos pela editora, que surgiu para manter projetos sociais, são utilizados de forma filantrópica", conta.
Projeto esteve em dez países diferentes
Arquivo pessoal
Além de 24 estados brasileiros, Ismael e a equipe já estiveram em dez países culturalmente diversos, como Bolívia, Namíbia e Uruguai. Durante as oficinas, os participantes são convidados a escrever um livro em tempo real, inspirado na própria realidade em que vivem.
"Nós formamos um círculo e vamos criando personagens, um vilão, toda uma história. É uma maneira muito eficaz de fazer os seres humanos criarem apreço pelo 'objeto' livro. Isso é sempre feito dentro da realidade de cada um. Por exemplo, a história que criamos com as crianças da favela da Rocinha é diferente da história que criamos com as crianças na comunidade indígena do Xingu", explica.
Projeto "Dando Asas à Imaginação" foi criado em 2020 pelo escritor Ismael Tavernaro Filho, de Itapetininga (SP)
Arquivo Pessoal
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Ao g1, Ismael explica que o projeto prioriza regiões isoladas, onde o acesso à educação e à literatura é limitado. Mesmo sem dominar os idiomas locais, ele conta que a recepção das comunidades costuma ser calorosa e que o número de crianças atendidas ao longo das ações é incalculável.
"Não há muitos locais para fazer e o projeto não precisa de muita infraestrutura. Quando fomos a Teresina de Goiás (GO), não tinha sequer uma escola, então fizemos no chão batido mesmo. Em casos assim, utilizamos praça pública ou algo do tipo", diz.
"A recepção sempre foi muito boa. A fase do projeto que estivemos na Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ), me marcou muito. Precisamos pedir autorização para entrar na favela para o 'pessoal paralelo'. Lá, existe uma consciência que, mesmo as pessoas que estão naquele meio [no tráfico de drogas], eles não querem que os filhos e sobrinhos sigam o mesmo caminho. Fomos muito respeitados por todos", completa.
Ismael leva o incentivo à escrita criativa para povos vulneráveis
Arquivo pessoal
Construção de escola em Angola
Atualmente, Ismael mora em Cerqueira César (SP) e também promove eventos voltados à literatura na cidade. Foi em uma das edições do projeto que ele conseguiu fazer com que estudantes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) lançassem o primeiro livro em todo o estado de São Paulo.
"São histórias que eu nunca vou esquecer. Nesta ocasião, as pessoas não acreditaram muito na ideia no começo, mas a coisa fluiu de uma maneira muito linda e emocionante. No Brooklin, em São Paulo (SP), estive em uma instituição de tratamento contra o câncer infantil. Por duas horas e meia, todo mundo esqueceu onde estava e as crianças esqueceram o que estavam passando. Foi uma simbiose literária muito bacana", destaca.
A edição mais recente do projeto reuniu 30 crianças em Havana, capital de Cuba, ao longo do mês de março. Ao todo, foram seis dias de atividades. Para Ismael, porém, o trabalho não termina com o retorno ao Brasil: os livros produzidos pelas crianças são finalizados e colocados à venda, e todo o lucro é revertido às comunidades atendidas, em benefício direto dos próprios moradores.
"Não é um projeto pontual. As atividades acabam, mas a comunidade continua sendo beneficiada de alguma forma. Esse retorno, para nós como seres humanos, está sendo de uma riqueza gigantesca. Ver como as coisas funcionam nos bastidores está sendo muito construtivo para mim", relata.
O organizador pretende ampliar o projeto por meio da editora. Entre as iniciativas em andamento está a construção de uma escola fixa em Angola, com o objetivo de garantir e facilitar o acesso das crianças da região à educação formal.
"Quando fizemos o projeto social por lá, surgiu a oportunidade de abrir uma filial da editora em Angola. Temos sete irmãos angolanos que trabalham lá. Agora, estamos construindo uma escola que atenderá 40 crianças, com alimentação e educação de fato. É o suprassumo do que imaginávamos no começo", finaliza.
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