Vereador chama homenagem a entidade da Jurema de 'porcaria' e é acusado de racismo após bate-boca na Câmara do Recife

  • 18/08/2026
(Foto: Reprodução)
Vereador chama homenagem a entidade da Jurema de 'porcaria' e é acusado de racismo O debate em torno de um projeto de lei sobre uma religião de matriz afro-indígena terminou com ofensas a uma entidade religiosa e insultos entre parlamentares na Câmara Municipal do Recife. A confusão aconteceu depois que o vereador Thiago Medina (PL) chamou Mestra Ritinha, entidade religiosa da Jurema Sagrada, de "mestra dos cabarés", e classificou como "porcaria" a proposta de homenagem (veja vídeo acima). A proposta de autoria da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), que criaria o Dia Municipal da Mestra Ritinha, foi rejeitada por 12 votos a 8 no plenário da Câmara nesta terça (18). A vereadora classificou o ocorrido como racismo religioso e informou que vai acionar o Conselho de Ética da Câmara Municipal do Recife contra as falas de Thiago Medina. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE A discussão aconteceu durante a sessão plenária da segunda-feira (17) e foi alvo de críticas da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Pernambuco (veja mais abaixo). O projeto de lei nº 147/2026 pretendia tornar o dia 25 de abril como data dedicada à Mestra Ritinha, uma entidade espiritual celebrada pelos fiéis da Jurema Sagrada, uma religião com raízes na cultura negra e indígena e com forte presença no Nordeste brasileiro (entenda mais abaixo). Durante a discussão do projeto, o vereador Thiago Medina comparou a manifestação espiritual com "cabaré". "'Saravá a Mestra Ritinha. Salve sua força e sua ciência'. Que ciência é essa? A do cabaré? Eu não conheço essa ciência, não. Mas é incrível o que nós estamos votando aqui no Recife. Estão sobrando medicamentos nos postos de saúde? Está sobrando material escolar nas escolas? Eu acho que a vereadora do PSOL não sabe, porque nunca foi fiscalizar. Fica só no gabinete e aí tem tempo para fazer essa porcaria de projeto aqui. Dia da Mestra Ritinha, a mestra dos cabarés", disse o parlamentar em discurso na tribuna. O vereador afirmou, ainda, que "quem é cristão de verdade não tem como votar favorável" à matéria e declarou que o projeto era um "absurdo" e uma "piada". Ele disse também que, como um "cristão que exerce um mandato de vereador", as entidades espirituais "não terão vez" e que "as trevas não têm vez contra a luz". O projeto de lei foi colocado para votação nominal logo após o discurso de Thiago Medina no plenário da Câmara. Na primeira votação, foram oito votos contrários à criação da data, quatro favoráveis e uma abstenção. Por conta do baixo quórum, ficou decidido que uma nova votação seria realizada na terça. Durante a justificativa do voto no plenário nesta terça, a vereadora Jô Cavalcanti defendeu o projeto e criticou o resultado da votação: "Essa casa mostrou hoje que a gente vive em um país antidemocrático, onde as religiões de matriz africana, afro-indígena e da Jurema, sofrem todo tipo de racismo. E a gente tem que nomear, que é racismo. Porque são religiões que vêm da África, de origem indígena. Eu, como presidente da Comissão de Igualdade Racial desta casa de José Mariano, um abolicionista, me sinto envergonhada com as coisas que aconteceram aqui. Nosso projeto, que era para criar o Dia Municipal de Mestra Ritinha, foi distorcido de uma maneira que a sociedade fica envergonhada", discursou. Ao g1, o gabinete da vereadora Jô Cavalcanti informou que vai entrar com um pedido de investigação de crime no Conselho de Ética da Câmara do Recife contra as falas do parlamentar por intolerância religiosa a partir da denúncia de racismo religioso, amparado no artigo 20 da Lei nº 7.716/89. De acordo com a assessoria de Jô Cavalcanti, a parlamentar também vai acrescentar ao pedido as condutas de "deboche contra a população LGBTQIA e desrespeito à vereadora", afirmou em nota. Vereador Thiago Medina (PL) na Câmara Municipal do Recife Reprodução/YouTube O g1 também entrou em contato com a assessoria de Thiago Medina. Em nota, a equipe do parlamentar afirmou que o vereador foi "alvo de agressões verbais proferidas por uma vereadora do PSOL". O texto afirma ainda que "ataques à honra não fazem parte do processo democrático, muito menos a imputação dos crimes de racismo e nazismo, sem qualquer fundamento, enquanto eu exercia o meu mandato parlamentar". A nota de Thiago Medina completa afirmando que a reprovação do projeto na Câmara "mostra que a maioria desta casa acompanhou os argumentos que apresentei", diz o texto. Sobre a queixa da vereadora Jô Cavalcanti na Comissão de Ética da Câmara, ele disse que desconhece qualquer processo, mas que tem "tranquilidade de que não cometi ilícito algum". Afirmou, ainda, que vai acionar a Comissão de Ética contra a parlamentar do PSOL, "que quebrou o decoro parlamentar ao me agredir verbalmente, com palavras de baixo calão, no plenário da Câmara dos Vereadores". OAB considera desrespeito A Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) criticou a postura do parlamentar. Ao g1, o presidente da comissão, Dantas Martorelli, afirmou que o vereador " "[A fala de Thiago Medina] revelou um desrespeito, não propriamente com a Mestra Ritinha, essa entidade, mas com tantas pessoas, milhares e milhares de pessoas que são adeptas da Jurema, que respeitam esta entidade espiritual", disse Dantas Martorelli. De acordo com o advogado, quando o vereador "associa a sabedoria, a ciência da Jurema, a ciência de cabaré, ele está menosprezando a tradição de milhares e milhares de pessoas que têm respeito por essa forma de compreensão, e revela uma insensibilidade que não deveria caracterizar um político, sobretudo alguém que ocupa um cargo de vereador", disse. O projeto O projeto de lei instituiria o Dia Municipal da Mestra Ritinha no calendário oficial de eventos do Recife. Mestra Ritinha é uma entidade espiritual da religião Jurema Sagrada, geralmente associada às pessoas vulneráveis, população de rua e a pessoas LGBTQIA+. A data reservaria o dia 25 de abril em homenagem. No texto original da proposta, Jô Cavalcanti defende a criação da data com "a finalidade de reconhecer, valorizar e dar visibilidade à importância da Mestra Ritinha enquanto entidade espiritual da Jurema Sagrada, bem como destacar a relevância dessa tradição religiosa e cultural para a formação histórica, social e identitária do povo recifense". Também prevê ações voltadas à valorização da Jurema Sagrada "como patrimônio cultural imaterial, ao combate à intolerância religiosa e ao racismo religioso, à difusão de conhecimentos sobre sua história e espiritualidade e ao fortalecimento do diálogo entre o poder público, povos de terreiro, comunidades de Jurema e instituições culturais". O projeto ainda argumenta que a Jurema Sagrada tem forte ligação com o Recife, especialmente em territórios como a Rua da Guia, no Bairro do Recife, "apontada por lideranças religiosas e pesquisadores como espaço de memória histórica, cultural e espiritual de mestres e mestras da Jurema", diz o texto legislativo. De acordo com o membro do Fórum de Diversidade Religiosa de Pernambuco, Tata Kambondu Francisco Tabalasimbe, adepto da Jurema Sagrada, a entidade é uma das mais importantes dentro do contexto da religião. "Na tradição juremeira, é cultuada como uma entidade de força, proteção, aconselhamento e sabedoria, representando também a resistência de mulheres historicamente marginalizadas e vítimas de violência. Sua trajetória, dentro da tradição da Jurema Sagrada, pode ser compreendida como expressão de resistência, acolhimento e proteção daqueles que sofreram exclusão, violência e preconceito", completa. A proposta foi apresentada em 27 de abril e, em 27 de maio, recebeu parecer favorável para aprovação da Comissão de Legislação e Justiça, com relatoria do vereador Gilson Machado Filho (Podemos). Apesar do parecer favorável na comissão, Gilson Filho votou contra o projeto na votação em Plenário, nesta terça-feira. Em 30 de junho, o projeto recebeu um segundo parecer favorável, desta vez da Comissão de Educação, Cultura, Turismo e Esportes da Câmara, com relatoria da vereadora Cida Pedrosa (PCdoB). Depois disso, seguiu para votação de todos os parlamentares, onde precisava da maioria simples dos presentes para ser aprovado. Entretanto, o projeto foi rejeitado, com 12 votos contrários e 8 a favor, sem nenhuma abstenção. Dos 31 vereadores presentes, 20 votaram. Como votaram os vereadores Contra (12 votos) Davi Muniz (PSD) Douglas Brito Ativista (Avante) Eduardo Moura (Novo) Fabiano Ferraz (MDB) Felipe Alecrim (Novo) Fred Ferreira (PL) Gilberto Alves (PRD) Gilson Machado Filho (Podemos) Paulo Muniz (PL) Professora Ana Lúcia (Republicanos) Rodrigo Coutinho (Republicanos) Thiago Medina (PL) A favor (8 votos) Aderaldo Pinto (PSB) Carlos Muniz (PSB) Cida Pedrosa (PCdoB) Jô Cavalcanti (PSOL) Kari Santos (PT) Liana Cirne (PT) Osmar Ricardo (PT) Rinaldo Júnior (PSB) Estavam na lista de presença, mas não votaram (11) Andreza Romero (PSB) Chico Kiko (PSB) Hélio Guabiraba (PSB) Jairo Brito (PT) Júnior Bocão (PSD) Júnior de Cleto (PSB) Luiz Eustáquio (PSB) Samuel Salazar (MDB) Tadeu Calheiros (MDB) Wilton Bruno (PSB) Zé Neto (PSB) Ausentes (6) Agora é Rubem (PSB) Eriberto Rafael (PSB) Felipe Francismar (PSB) Natália de Menudo (PSB) - ausência justificada Romerinho Jatobá (PSB) Ronaldo Lopes (PP) VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/08/18/vereador-chama-homenagem-a-entidade-da-jurema-de-porcaria-e-e-acusado-de-racismo-apos-bate-boca-na-camara-do-recife.ghtml


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